Os templários
Proferida por Lex Bos na Holanda
Impulso para uma estrutura social moderna.
Baseado numa palestra proferida por Lex Bos durante o congresso da sociedade
antroposófica dos Países Baixos, de 23 a 25.5.80, cujo tema era: "A tarefa
mundial dos templários"
Caros ouvintes!
Os acontecimentos dos séculos XII e XIII podem sempre de novo nos surpreender.
Desabrochou um inusitado florescimento da vida cultural e econômica. Naquela época, fora construído trezentas grandes catedrais. Uma rede de estradas unia os locais das constrições. Em todo lugar havia conventos e albergues
para os viajantes. Não grassavam epidemias, vivia-se em segurança. Surgia um novo sistema bancário e monetário que possibilitava o
comércio e o desenvolvimento da vida nas cidades.
Tão repentinamente como esta época surgiu com as primeiras cruzadas, tão abruptamente se encerra no inicio do século XIV. Irrompe a guerra dos cem anos, e para a Europa tem inicio uma época sombria de discórdia, pobreza
e desgraça.
Ao tentarmos esclarecer o segredo dessa época, deparamos coma a ordem dos templários e seus cavaleiros. A ordem surge tão repentinamente como um cometa.
Ela é exterminada á força, quando Felipe o Belo manda prender os cavaleiros e em 1314 Jacques de Molay, o último grão-mestre. Morre na fogueira.
Vamos rememorar rapidamente a historia do surgimento da ordem para, que seguida, nos ocuparmos da pergunta: onde fazem as raízes do impulso templário
e qual sua importância para a atualidade?
Em 1095 o Papa urbano II ( o antigo prior de Cluny) exorta para a primeira cruzada. Essa idéia remonta ao Papa Silvestre II, o antigo Beneditino Gerbert
de Aurillec.
Dessa cruzada participa Hugo de Payens, na ocasião com 16 anos. Em torno de 1104, ele novamente permanece por algum tempo no oriente. No ano de 1119,
nove devotos cavaleiros, liderados por Hugo de Payens, apresentam-se ao rei Balduíno II em Jerusalém e se oferecem para zelar pela segurança dos peregrinos
cristãos na estrada entre Jaffa e Jerusalém. Orei aceita esta sugestão e coloca a
disposição uma parte do seu palácio para servir de quartel-general.
Este palácio encontra-se sobre as ruínas do templo de Salomão. Diante do Patriarca de Jerusalém, os noves cavaleiros depõem os três votos de pobreza,
castidade e obediência. Como também se haviam proposto a reconstrução do templo de Salomão, são denominados "Os cavaleiros do templo".
Os noves cavaleiros não pertencem á nobreza mais baixa; ao contrario, formam o cerne da mais alta nobreza dos cavaleiros da "Champagne" francesa. Por
muitos anos permanecem na terra Santa. Para fora desempenham as tarefas de cavaleiros perante peregrinos. Sua verdadeira obra, porem, é de outra espécie.
O que é que procuram na área do templo de Salomão? Por que faz, durante anos, levantamentos topográficos e escavações arqueológicas? Qual é o segredo
que buscam desvendar para procurar receber seus impulsos espirituais justamente nesse local?
Sigamos os caminhos da Hugo de Champagne, um dos nove cavaleiros. Durante os anos de 1104/5 ele se encontra na terra Santa. Após sua volta, entra em
contato com Stephan Harding, que passa a ser abade do mosteiro de Citeaux
em 1109. Foi em Citeaux que no ano de 1098 teve inicio o movimento de reformação
dos Cisterciences. Impulsionado por esse contato, o antecessor de Harding, o abade Alberia, ordenou que seu mosteiro, que
até lá se destinara á contemplação
a aos estudos, passasse a dirigir-se ao estudo consciencioso dos textos sagrados dos hebreus.
Em 1114 Hugo de Champagne visita mais uma vez, por pouco tempo, a terra
Santa e, após sua volta, no ano seguinte, dirige-se novamente a Stephan Harding.
Para a fundação de uma abadia, ele doa a ordem dos Cistercionces (?) um pedaço
de terra na floresta de Bar-sur-aule. O jovem monge Bernhard de Fontaine,
juntamente com mais 12 monges, funda a abadia de Clairvaux. Ele tem somente
25 anos, mas já é uma tal personalidade, que atua de maneira decisiva na
direção espiritual e política do ocidente.
Em 1128 a maioria dos nove cavaleiros se encontra novamente na Champagne.
Bernhard de Clairvaux convoca para um concilio em Troyes. La Hugo de Payens
expõe seu desejo de fundar uma ordem espiritual de cavaleiros cujo cerne deverá ser constituído de seus companheiros templários. O concilio da sua
anuência a este pedido e incumbe Bernhard de Clairvaux de elaborar as regras
da futura ordem.
Se observarmos com que rapidez esta ordem começa a florescer logo após sua
fundação, em curto espaço de tempo em todos os lugares surgem dependências
da ordem, e como se começa com a construção de catedrais, se adquirem propriedades,
são construídas estradas e se desenrolam atividades de cunho bancário, então
obtemos a impressão de que o solo para tudo isto já estava preparado, que
aqui um longo período de preparo em pouco tempo apresentou seus frutos.
Tentarei lhes transmitir uma impressão desta época de preparação. A intenção
do movimento dos cisterciences era de levar simplicidade e interiorização
á vida monástica decadente. Cluny, que fora um importante centro, perdera
sua substancia espiritual. A partir de Cluny, fundado em 910, podemos perseguir
fios espirituais e culturais ate Benedito de Nursica (nascido ao redor de
480 e falecido em 547) e a fundação da ordem dos Beneditinos no mosteiro
de monte cassino. Benedito é o autor da entidade monástica que deveria sustentar
a vida espiritual e cultural do ocidente através dos séculos. A tarefa dos
templários iria ser a transformação da velha entidade monástica, fazendo
um ponte para a atualidade.
Benedito fundou o mosteiro como uma comunidade de monges. Antes havia eremitas
solitários ou que conviviam desprendidamente. Estes haviam se afastado da
sociedade humana para se dedicar completamente a oração. Podemos seguir esta
corrente, como sintoma surgido principalmente os monges viviam exclusivamente
daquilo que encontravam na natureza ou do que lhes era trazido por outros,
num estágio posterior eles também se dedicam á lavoura. E isto não só para
suprir as próprias necessidades, mas principalmente em virtude da consciência
que surgia lentamente, de que um cristão não deve se afastar da terra. Benedito
da mais um passo. Ele funda um centro no qual os monges convivem, e impõe
regras para essa vida comunitária. Com isso a entidade monástica pode se interiorizar e humanizar. Os mosteiros passam a ser os centros de vida religiosa
e cientifica. Tornando cultivável a terra que os circunda, criam o germe
de uma responsabilidade completamente nova: a responsabilidade pela terra.
Com a fundação da ordem dos templários, a entidade monástica da o próximo
passo em seu desenvolvimento. Acontece uma espécie de inversão da direção
que agora passa a ser uma organização de instituição monasteriais com uma
forte influencia social e econômica sobre o mundo ocidental. A ordem nonastérica
até então direcionada para dentro é transformada em uma ordem social direcionada
para fora. A frouxa união de mosteiros com uma forte influencia social e
econômica sobre o mundo ocidental. A ciência
dos mosteiros ate lá orientada pela teologia começa a transformar-se nas
ciências naturais das universidades, que são dirigidas para o mundo captável
pelos sentidos. Essa transformação se da durante os dois
séculos em que atuam os templários.
Voltemos mais uma vez a Benedito. Sua principal obra foi a de ditar regras
para a comunidade monástica. Ao observá-las, podemos constatar claramente
três categorias:
- Regras para a vida religiosa e de orações;
- Regras para a convivência dentro da comunidade monástica;
- Regras para o trabalho no campo, mais tarde também para o trabalho artesanal.
E interesse que a quantidade de regras aumenta na seqüência acima. Só existem
algumas poucas regras básicas quanto as orações e á participação nos cultos.
As diretrizes para a vida comunitária já são bem mais complicadas. A organização
da vida no trabalho pratico da margem as disposição e regras as mais diferenciadas.
Não deveria ser difícil vislumbrar nestas regras uma predisposição para a
trimembração, a diferenciação de três âmbitos de vida qualitativamente diferentes:
- a vida cultural e espiritual
- a vida social e de direito
- a vida econômica e terrena
No fundo, podemos ver um fluxo continuo que vem de Benedito através da ordem
dos templários ate a trimenbração social.
No ano de 529 Benedito fundou seu primeiro mosteiro entre Roma e Nápoles
situado sobre a Monte Cassino. No mesmo ano o imperador Justiniano ordenou
o fechamento das escolas de oratória e filosofia em Atenas. Estas escolas
formavam o centro do estudo de tudo aquilo que chegara ate o ocidente em
matéria de sabedoria oriental e conhecimento dos mistérios. Depois de sua
dissolução, surgiu a pergunta onde futuramente esta sabedoria deveria ser
mantida e preservada. Aparentemente Benedito, por ocasião da fundação de
sua ordem, incluiu esta preservação nas metas.
Desde esta época, 529, transcorriam cerca de 700 anos até o meio daquele
período em que atuaram os templários. Se acrescentarmos mais uma vez o mesmo
período, estaremos no fim da primeira Guerra Mundial, portanto a época na
qual Rudolf Steiner colocava sobre europeu a trimembração social como impulso
social sanante. Com isto não queremos explorar nenhum misticismo numerológico,
queremos tão somente suscitar uma sensação de como as fundações monásticas
de Benedito e seus seguidores, a ação dos templários e o impulso de Rudolf
Steiner para a trimembração, representam invólucros mutáveis de um mesmo
fluxo renovador cristão e social.
Quais os acontecimentos que sucedem entre a fundação monástica de Monte Cassino
e aquela em Clairvaux? É interessante seguir como através da história a cerne
dos iniciados da ordem muda de alojamento e local de permanência de acordo
com as circunstancias condicionadas pela política e pelas guerras. Inicialmente
ele muda do Monte Cassino para o latrao, o palácio papal em Roma; depois,
a mando de Gregório I para Fleury-sur-loire. Quando este mosteiro queima,
os monges procuram salvar, sobretudo os valiosos manuscritos que contem uma
coleção completa de toda a ciência clássica. Depois o centro é transferido
para a Borgonha, de lá para a Catalunha, para Glanfeuil, depois, na fuga
dos normandos para Sint-sur-Gartempe e finalmente para Saint-Martin-dÁutun
(880). Na época subseqüente o centro espiritual da ordem é levado pelo abade
Berno, que tem consigo mais de 900 manuscritos de antigas sabedorias, para
Gigny no Jura. De lá Berno muda com doze monges para uma região que lhe é
colocada á disposição por Carlos III da Borgonha: Cluny. Neste lugar o centro
da ordem permanece ate a época das cruzadas. È um antigo prior de Cluny,
que como Papa urbano exortou a primeira cruzada.
Entrementes uma outra corrente poderosa se uniu á de Benedito.
Benedito, que mais tarde foi santificado, morreu no ano de 547. Poucos anos
antes nasceram na Irlanda Columbano o Jovem, que mais tarde passou a ser
conhecido como Santo Columbano (?). Benedito preservou para o mundo cristão
o tesouro dos clássicos, Columbano a riqueza espiritual dos celtas. Ao redor
do ano 600 Columbano fundou mosteiros em Annegray a beira dos Vosges, em
Luxeuil, que rapidamente se tornou importante, em Fontaine. Mais tarde
ele exerce uma intensa atividade missionária. Ele também viaja para Roma
para procurar Gregório o grande, e mais tarde percorreu a Lombardia. È um
viajante com uma importante incumbência. A ordem dos Beneditinos surge na
Itália, o movimento monástico de Columbano na Irlanda. O desenvolvimento
de ambos e finalmente também sua fusão se da principalmente na Gália.
Depois que a corrente espiritual encontrou seu lugar em Cluny, parece que
tudo está orientado para deixar que o desenvolvimento continue tranqüilamente.
Este centro conquista uma posição de exceção dentro da organização eclesiástica
e é poupada das pressões políticas. As regras da ordem são renovadas por
Odilo (falecido em 1049). Cerca de 1.300 mosteiros se reúnem sob as novas
regras de Cluny. Os mosteiros passam a ser principalmente centros em que
são exercidos diversos ofícios. Como conseqüência, mais tarde surgem sobre
suas bases as corporações. Cluny é o primeiro mosteiro a partir do qual é
feita a tentativa de se construírem edificações religiosas segundo velha
sabedoria dos mistérios, edificações que, a partir delas mesmas atuem diretamente,
sem necessidade de rituais eclesiásticos. Os beneditinos criavam as construções
românicas como que templos para seus monges. Com a transição para o período
gótico, cada vez mais as igrejas e catedrais passam a ser casa de Deus para
os crentes, Porem, sobre estes o ritual eclesiástico exercia cada vez menos
influencia. Por isso tornava-se cada vez mais importante como o ambiente
em si e suas proporções atuavam sobre as pessoas. Para construir tais edificações,
é necessário o conhecimento de certas leis secretas. È preciso que se saiba
como " a pedra tem de ser tratada". È um saber que, por exemplo, pertencia
tanto aos construtores dos dolmens, das pirâmides egípcias ou de muitos dos
templos gregos, como também pertencia ao construtor do templo de Salomão.
No ano de 1098 é fundada, em Citeaux, a ordem dos cisterciences pelo beneditino
Robert de Molesme. Este mosteiro perfaz um importante desenvolvimento. Em
1112 Bernhard de Fontaine com trinta monges se liga a este mosteiro. De Citeaux
ele vai para Clairvaux para preparar a missão espiritual da ordem dos templários
na recém fundada abadia.
O impulso do mosteiro era portado por uma divisa muito clara: " ora et labora"
- ore e trabalhe.
Qual o segredo desenvolvimentista que se oculta atrás destas três palavras?
Este segredo pode ser indicado como sendo o mistério cristão central, o mistério
da ressurreição: como o espiritual pode penetrar o material, como o espiritual
pode se unir ao terreno? Estamos em condições de levar o espírito a se expressar
na matéria, em nosso trabalho cotidiano, em nossa atividade profissional?
Por outro lado, será que somos capazes de lidar com nossas experiências terrenas,
com nossa situação de vida concreta, com as percepções sensoriais de tal
modo, que sejamos capazes de descobrir qual a realidade espiritual que nelas
se expressa? Na divisa " ora et labora", no criar relações entre o espiritual
e o terreno, se trata de um motivo profundamente cristão. Imediatamente suscita
a pergunta quanto ao âmbito central: através do que esses dois podem ser
reunidos?
Quando Benedito da as bases para o seu mosteiro, as regras para a vida comunitária,
sob suas instruções, de antemão adquirem uma posição central. Na verdade
dever-se ia dizer: "ora, com-vive at labora". Ora, viva em comunidade com
outros e trabalha. A comunidade monástica formava um ponto central entre
vida interiorizada, direcionada a oração e a vida de trabalho direcionada
para fora. Podemos então perguntar, o que acontece quando não há mais uma
relação que as une, quando não há mais uma relação entre a vida profissional
e a vida espiritual e cultural? O que acontece nestes casos pode ser observado
na vida cotidiana que nos cerca: consuma-se uma crescente apartação de dois
mundos, de dois grupos humanos. De um lado vemos pessoas que se tornam cada
vez mais escravas da produção e do consumo de mercadorias, cada vez mais
presas e uma vida econômica apossada pelo materialismo do outro lado vemos
grupos de pessoas que se afastam da terra e dessa vida de trabalho para se
entregarem as mais diversas formas de volúpia espiritual. Quando "ora et
labora" se apartam, surge a imagem de uma vida espiritual completamente alienada
da terra e de uma vida de trabalho e profissional cunhada pelo materialismo.
Para onde devemos olhar em nossa época quando queremos tentar unir "ora"
e "labora"? De que tipo de ponte poderá tratar-se, quando a questão realizar
uma ligação entre espírito e matéria? Qual a atividade humana que se orienta
para ambos os lados? A resposta é obvia: a atividade artística. Schiller
signou arte social como sendo a mais alta expressão da arte. Todos nos devemos
nos tornar artistas sociais.
Mencionaremos aqui dois tipos de arte social que de forma especial conseguem
fazer a ponte a ponte entre "ora" e "labora": o manuseio da dinheiro de empréstimo
e lidar coma discussão de trabalho.
dinheiro emprestado ou creditado faz a ponte entre as idéias criativas
e sua realização no material, cujos frutos venham a ser de utilidade para
a comunidade humana. Pode ocorrer que alguém tenha uma idéia brilhante, ou
que um grupo de pesquisadores faça uma descoberta de grande futuro. Pode
tratar-se de tudo: de um novo artigo de consumo, por exemplo, um fecho éclair
ou uma fralda, de um novo principia educacional ou de uma nova forma de produzir
medicamentos. Em todas estas descobertas e invenções podemos os perguntar
como poderiam ser colocadas com a maior utilidades possíveis para os outros
nos mais diversos âmbitos de vida. Para possibilitar a uma idéia que ela
se encarne de maneira pratica na realidade social, é preciso, no mínimo,
um local de trabalho, mas em muitos casos também maquinas, ferramentas, capital
de trabalho. Quem deve proporcionar tudo isso? Certamente o consumidor, ao
comprar um fecho éclair estaria disposto a pagar alguns centavos a mais para
que o fabricante possa saldar os créditos assumidos para a compra de todos
as maquinas necessárias para a confecção de fechos éclair. Mas é obvio que
o consumidor não quer pagar tudo sozinho. Todos os usuários, que no decorrer
aos anos compram o produto tem que providenciar conjuntamente este dinheiro.
Isto leva alguns anos. Porem é agora que o empresário precisa do capital
inicial pra realizar a idéia do fecho éclair, para que este se torne útil
para outras pessoas. Portanto, quem estaria disposto a emprestar-lhe o dinheiro
para recebê-lo de volta, por exemplo, em cinco anos com os respectivos juros?
A resposta a essa pergunta constitui-se na criação do dinheiro de empréstimo.
Com este empréstimo é vencido um período que começa no momento em que necessita
do capital para poder realizar idéias e aplicá-las de maneira que se tornem
úteis a outros, e termina com o processo durante o qual o dinheiro é lentamente
reunido por todos aqueles que podem fazer uso da idéia que foi levada ate
a matéria (por exemplo, a idéia do fecho éclair).
Através do dinheiro doado possibilita-se desenvolvimento de pessoas ou idéias,
que, no entanto nem sempre forçosamente terão que ser frutíferas.
Com o dinheiro de compra podemos adquirir mercadorias, no entanto isto não
esta relacionada a qualquer renovação ou desenvolvimento.
O dinheiro de empréstimo (crédito) possui o caráter misterioso de servir
de ponte sobre um abismo, uma ponte entre o desenvolvimento na vida espiritual
e cultural e sua realização material na vida econômica.
Neste sentido os templários executam um trabalho preparatório. Eles conheciam
e desenvolveram a natureza do crédito, o dinheiro de empréstimo. Este porem
naquela época se encontrava muito ligado a esfera da vida política de um
lado e do outro a esfera do dinheiro de compra. A ligação com a vida econômica
estava apenas começando. Podia-se depositar o dinheiro numa das casas da
ordem ou numa casa de comercio e sacá-lo novamente em outro local. Essa possibilidade
trouxe ao mesmo tempo a solução de um problema de segurança: não mais havia
a necessidade de viajar com dinheiro, que, portanto não mais podia ser roubado.
O dinheiro era deixado com os templários e, através de um sistema de giro
podia ser retirado em outro lugar. Trata-se, portanto de uma espécie de sistema
de credito que ainda estava bastante presa a esfera do dinheiro de compra.
O dinheiro de economia que daí surgia, entre outros, era emprestado aos
nobres que o necessitavam para seus empreendimentos políticos - provavelmente
na maioria dos casos, para remunerar seus soldados.
Na verdade, o dinheiro de empréstimo, como ponte entre espírito e matéria,
entre 'ora' e "labora" realmente entra em uma fase de desenvolvimento com
o inicio da revolução industrial, quando se tornou necessário o capital para
os investimentos. Torna-se compreensível de que é da maior importância a
que tipo de moralidade este dinheiro de empréstimo se liga. Temos que desenvolver
nossa consciência a tal ponto que consigamos enxergar a qual espírito está
possibilitando a aproximação a matéria com a ajuda do dinheiro de empréstimo.
Os templários lidaram com o ouro de maneira extremamente despretensiosa.
Eles o conseguiam, pois que no centro de sua vida esotérica havia meditações
que suscitavam forças criticas e altruístas. "non nobis, domine, non nobis,
sed tuo nomini da gloriam" "não a nos, senhor, não a nos, mas o teu nome
cabe a honra" - este era seu lema. Com isto cada templário despertava em
si a sensação de que o sangue que corria em suas veias não pertencia a ele
e sim a cristo.
Atualmente, ao fazermos uma economia, temos que exercitar nossa consciência
para perceber qual o espírito que estamos ajudando a se realizar na terra,
quais as idéias que se encarnam através do dinheiro de empréstimo. Hoje em
dia tem-se a impressão de que muito "dês-espirito" se encarna esse alastra
sobre a terra através de uma entidade creditícia" enferma. Temos que purificar
e sanar a entidade creditícia que vive atualmente.
Como segunda ponte entre "ora" e "labora" já foi mencionada e discussão de
trabalho: a discussão que é mantida em todo lugar onde pessoas estão atuando
a partir do pensamento, idéias e representações de metas etc. pode-se tratar
de um circulo de pessoas de uma escola ou de um grupo de médicos e terapeutas
em um centro de saúde. Também num grupo de empresários, num circulo de gerentes
e departamentos ou entre pessoas que trabalham numa entidade social, pode
haver tal discussão. Em todo lugar onde, a partir do espírito, de idéias,
haja pessoas querendo trabalhar nessa terra, tornar-se-á necessária a discussão
de trabalho: uma discussão onde, de um lado, se reúne idéias concebidas individualmente
que levem a um ideal ou a uma meta e, de outro lado, se forme uma imagem
comum daqueles pontos de vista sob os quais cada um, de acordo com sua posição
na vida, enxerga a realidade, assim pode-se encontrar o caminho certo para
realizar idéias a aprender das experiências de trabalho. Na discussão de
trabalho os participantes falam sobre a maneira como pretendem agir com suas
idéias na realidade terrena. Ao mesmo tempo observam através dela os resultados
de sua ação e se conscientizam assim daquilo que conseguiram realizar e tenta
deduzir qual terá que ser o próximo passo a ser dado. Também através da discussão
de trabalho surge um meio entre "ora" e "labora". Isto exige muito exercício;
é preciso exercitar o falar, o ouvir e as habilidades sociais. Nisto, no
entanto se forma a substancia que pode unir os pólos. Também a concessão
de créditos pode tornar-se o ponto central de discussões de trabalho. Pessoas
em condições de emprestar dinheiro e outras com necessidade de créditos entram
em discussão sobre a questão de como poderá ser construída uma ponte creditícia.
Quando a entidade creditícia e a discussão de trabalho são representadas
como a ponte entre "ora" e "labora", então quem é que não pensa no conto
de Goethe e na discussão entre a serpente verde e o rei dourado:
" mal a serpente avistou a venerável imagem, o rei começou a falar, perguntando:
"de onde vens? - "dois abismos nos quais habita o ouro", respondeu a serpente,
o que supera o ouro em sua magnifiolencia perguntou o rei. " a luz", respondeu a
serpente. " o que deleita mais do que a luz? Perguntou aquele. "A palestra",
respondeu esta.
Qual a tarefa que os templários se haviam proposto? Eles trabalhavam pela
permeação do cristianismo na Europa. Isto no fundo significava que tinham
que criar o solo propicio para a nova estruturação da vida econômica num
sentido cristão. Pois, se o espírito de cristão não se puder tornar realidade
em nossas relações com a terra, então ele não será atuante. Em última análise,
esta tarefa significa uma reordenação fundamental da vida social. Através
a atuação dos templários, esta vida social desenvolveu-se de seu estado
feudal para uma simbiose das culturas da cidade e do campo; da unilateralidade
da economia agrária para uma polaridade artesanal-agrária, com uma indústria
que foi acrescida posteriormente: ela desenvolveu-se de uma economia a base
de troca para uma economia monetária e creditícia.
Assim tem lugar principalmente a transformação de uma forma social vertical
para uma horizontal - de uma sociedade que ainda tem uma estrutura completamente
hierárquica, onde todos os fios espirituais e administrativos são reunidos
num processo horizontais entre uma infinidade de órgãos que interdependem
das mais diversas maneiras.
Se observarmos os acontecimentos ocorridos no século XII e XIII dentro de
um amplo quadro desenvolvimentista, então nos daremos conta de que se trata
de acontecimentos ocorridos num período de transição entre duas formas sociais
diametralmente polares. No âmbito da primeira, a vida espiritual é abrangente
(grego: katholos) e a vida econômica despedaçada em uma infinidade de unidade
auto-suficiente. No âmbito da segunda, a vida espiritual vai se apoiando
cada vez mais nas forças de personalidade únicas, de inúmeros indivíduos,
enquanto que a vida econômica vai adquirindo cada vez mais o caráter de economia
mundial, uma interdependência mundial que tudo perpassa.
O quanto o templário via seu impulso espiritual na permeação cristã da vida
econômica, ainda pode ser visto depois de sua distribuição. Em Portugal a
ordem ressurge como a ordem de cristo. É esta ordem de cristo que instala
um centro em sagres, o ponto mais ao Sul do país, entre o oceano atlântico
e o mediterrâneo. Aparentemente trata-se de uma escola de navegação, mas
na verdade trata-se de um centro esotérico. Henrique, o navegador, grão-mestre,
a ordem de cristo é seu guia espiritual. As vésperas das viagens de descobrimento,
ele instala uma escola onde era ensinado aquele que se punham a caminho para
descobrir no ultramar outros povos e raças, inclusive as riquezas inimagináveis
que lá jaziam sob a terra, o maior interesse pelos seres humanos e a mais
alta moralidade para com a terra. A expressão oculta para isso era: Vamos
á procura do reino secreto do sacerdote-rei João.
-Era este espírito que
se queriam encarar os descobrimentos. A nova economia mundial não foi concretizada
dentro desse espírito. A Tonica foi o enorme desinteresse por outros povos
e raças e a enorme ganância por suas riquezas. Se atualmente falamos num
dialogo norte-sul como base de uma ordem cristã da economia mundial, então
encontraremos como ponto de partida o impulso da ordem dos templários e da
ordem de cristo de Henrique, o navegador em Sagres.
O solo para a reversão de uma sociedade de orientação vertical para uma sociedade
de orientação horizontal foi preparado pelos templários. Eles começam a emancipar-se
de uma hierarquia eclesiástica. São responsáveis unicamente perante o Papa.
Durante o período de sua atuação, eles criam ligações entre um grande número
de casas da ordem, locais de trabalho, centros de provisão, entidades de
ensino para atividades manuais, hospedarias e hospitais. Temos que imaginar
tudo isso como uma vasta rede de relações entre os mais diversos locais para
a oração, para a vida e para o trabalho. Naturalmente todos estavam principalmente
direcionados para a construção de catedrais e os respectivos serviços formavam
porem, no que se refere a sua estrutura social, uma rede de interligação
das mais diversas organizações.
Os templários conheciam as leis espirituais nas quais se fundamentava a construção
do corpo humano. Eram os portadores de uma corrente esotérica, na qual eram
guardadas sabedorias ocultas. Foi o conhecimento desses segredos ocultos
que possibilitou a construção do templo salomônico. Como descrito, os primeiros
templários permaneceram por muitos anos no lugar onde ele estiver localizado
antes de voltarem e fundarem a ordem. A mesma sabedoria oculta, as mesmas
idéias arquetípicas que regem a criação do corpo humano e que possibilitaram
a construção de suas catedrais. Mas sabiam também, que as mesmas leis deveriam
inspirar a edificação de uma nova ordem social. Sabiam que esses segredos
deveriam formar a chave para a construção de um templo da humanidade - a
chave para a estruturação de uma nova realidade social. Porem, eles não podiam
ir mais adiante do que era possível nos séculos XII e XIII. Naquela ocasião
só puderam executar a tarefa de formar os fundamentos para uma convivência
humana renovada, que seria a base do novo templo.
Rudolf Steiner deu continuidade a esse impulso no nosso século. Nos anos
de 1905 e 1906 ele profere palestras sobre Caim e Abel, sobre Salomão e Hierão
(?) e a construção do templo. Em diversas ocasiões ele conta a assim chamada
"lenda do templo". Na mesma época ele escreve três artigos sobre Antroposofia
e a questão social. No ultimo deles, ele formula a lei social principal que
tem o seguinte teor: "O bem de uma comunidade de seres humanos que colaboram
é tanto maior, quanto menos o individuo exigir para si o fruto do seu trabalho,
ou seja, quanto mais desse fruto ele entregar aos seus colaboradores e quanto
mais as suas próprias necessidades não forem satisfeitas através do seu trabalho
mas pelo trabalho dos outros". Com isto ela aponta para o modo de pensar,
para o fundamento moral sobre o qual essa nova sociedade pode ser erigida.
Essa atitude básica só pode surgir a partir de uma empolgante imagem espiritual
do ser humano.
Nos três artigos ele também expõe que só o modo de pensar não basta, mas
que também é necessário criar-se organizações sociais e que é preciso conhecer
princípios de estrutura social. Não basta somente a visão de como um edifício
deveria ser construído. Salomão teve tal visão, porem não conseguia erigir
o templo. Dependia de Hierão (?) que conhecia os segredos da terra. Aqueles
princípios de estruturação social, as imagens arquetípicas das organizações
sociais têm origem na mesma imagem espiritual do ser humano.
Assim insinua Rudolf Steiner naqueles três artigos, na esperança de que isso suscitasse
perguntas: de que tipo de organizações se trata? Como é que devemos
imaginar aqueles princípios estruturantes?
Mas ninguém formulou tais perguntas, e os três artigos não tiveram continuação.
Até que quatorze anos mais tarde surgiu "os pontos Cerne da questão Social
nas necessidades vitais da atualidade e do futuro" onde são comunicados os
princípios fundamentais da estruturação do futuro templo da humanidade: a
trimembração social. Pouco antes, no ano de 1917 Steiner publicara os resultados
de uma pesquisa cientifico - espiritual sobre as leis da formação do corpo
humano que levara 30 anos. Nessa época ele escreve pela primeira vez sobre
os segredos dos três sistemas de órgãos: do sistema neuro-sensorial, do sistema
respiratório e circulatório e do sistema metabólico-locomotor. Ele indica
como o peculiar entrelaçamento destes três sistemas proporciona á entidade
humana espiritual e anímica a possibilidade de viver dentro de um corpo físico.
Logo depois ele publica os pontos de vista da trimembração social. No prefácio
da segunda edição de "Os pontos cerne da questão social" Rudolf Steiner menciona
dois termos que formam o cerne ou a chave para aquele tipo de instituição
através das quais a mentalidade expressa na "Lei social principal" pode manifestar-se
claramente. Estas duas palavras-chaves são "auto-gestão" e "associação".
Onde Rudolf Steiner fala sobre a trimembração social, surge a imagem de uma
multiplicidade de centros produtivos, organizações e empreendimentos, no
quais todos, a partir da gestão, criam suas próprias formas de colaboração,
mas ao mesmo tempo, nas mais diversas formas de dependência mútua, relacionam-se
através do dar e receber. Estas unidades produtivas com auto-gestão podem
ser escolas e hospitais, mas também companhias de seguro, transportadoras,
empreendimentos de prestação de serviço ou de produção. Das maneiras mais
diversas elas podem estar entrelaçadas. O interessante é, e pode ser verificado
na realidade dos fatos, que tais centros ou unidades quase que automaticamente
encontram uma grandeza adequada ao homem, sempre que conseguem dar-se
uma forma auto-gerida.
Atualmente fala-se muito em "unidades pequenas", mas no fundo, trata-se ai
de um termo abstrato e vago. Quando realizamos a auto-gestão, surgem, como
conseqüência, unidades de trabalho que tem uma medida humana, uma ordem de
grandeza adequada ao ser humano.
Outro principio plasmador mencionado por Steiner é a "associação". Podemos
imaginar a corrente de associação como um daqueles desenhos entrelaçados
irlandeses. Produtor, consumidor e comerciante, através de associação podem
entrar em entendimento quanto a preço, oferta e prazo de entrega. Mas também
podemos imaginar associações entre industrias e instituições do âmbito cultural.
As primeiras doam parte do seu lucro a estas ultimas, pelas quais sentem
certa responsabilidade. Também podemos pensar em centros de formação ou locais
de trabalho para excepcionais, aos quais as industrias transferem parte de
sua produção como possibilidade de aprendizado ou exercitação para pessoas,
sem que isso sejam comprometidos associativos, como por exemplo, no caso
de uma loja a qual se anexa uma cás de cha, que se torna um ponto de encontro
cultural.
Não devemos pensar em instituições antroposóficas. Com a devida atenção iremos
constatar que a tendência a entrelaçamentos como processo sócio-ecológico
surge em todo lugar e de maneira crescente. Porem ele é estorvado por antigas
estruturas hierárquicas e burocráticas, ou seja, em virtude do fato de muitas
pessoas que se encontram dentro de organizações, geralmente não se interessarem
muito por aquilo que acontece ao seu redor.
Podemos fazer a pergunta se estas idéias da auto-gestão e do entrelaçamento
associativo são algo novo trazido por Rudolf Steiner, algo que, por assim
dizer, caiu do céu com "Os pontos Cerne" ou se suas raízes podem ser encontradas
em épocas mais remotas da historia. O ritmo dos sete anos na biografia de
Steiner pode ser uma chave para a resposta desta questão. Se, a partir da
primeira edição de "Os pontos Cernes" em 1919 voltarmos sete anos, chegaremos
ao ano de 1912. Nesta época Rudolf Steiner profere palestras sobre as virtudes
humanas. Entre outros ele fala sobre as três atitudes palestras anímicas
básicas do interesse: (espanto), da compaixão (amor) e da consciência moral
(responsabilidade). Podemos considerá-las a metamorfose dos três votos sacerdotais
(pobreza, castidade e obediência). No fundo, Rudolf Steiner descreve estas
três forças anímicas de tal forma que seu efeito na vida social faz surgir
a trimenbração social.
Se voltarmos mais sete anos, chegaremos a 1905, quando proferidas as três
palestras já anteriormente mencionadas. Voltando mais ainda, ate 1898, então
estaremos num ano que Rudolf Steiner esta preste a iniciar sua atuação na
escola de formação de trabalhadores denominada em honra a Wilheln Liabknecht.
Ele participa da turbulenta vida política de Berlin e esta em contato com
muitas personalidades, entre outras também com John Henry Mackay. Numa carta
a este dirigida ele escreve que lê mesmo, se quisesse caracterizá-lo segundo
suas concepções políticas, denominar-se-ia um anarquista individualista.
Se hoje proferimos a palavra anarquia, ela dificilmente poderá ser separada
daquele significado macabro que adquiriu atualmente. A palavra anarquista
é relacionada a terrorismo, força de destruição e agressividade. É neste
sentido que aprendemos a usar esta palavra. Porem deveríamos tentar entender
esta palavra ainda de uma outra maneira. Em uma conversa Rudolf Steiner teria
dito que a alma da hierarquia e á da alma do intelecto a monarquia.
Ele esboça assim o desenvolvimento das formas sociais Hierarquicas, passando
pela monarquia ate anarquia aqui é entendida no sentido do domínio do sagrado,
do supra-humano; monarquia no sentido de que um rei, um nome, é o dominador;
a anarquia não conhece mais um centro dominador. Ela se torna realidade lá
onde surge umas ordens individuais, situacionais, onde tudo esta entrelaçada
em sentido horizontal. Recordamos mais uma vez os dois princípios plasmadores
mencionados no prefacio de "os pontos Cerne". Com base neles, a designação
"anarquista individualista" que Steiner se deu na carta a Mackay, também
poderia ser entendida como se Steiner se considerasse "auto-gerante em colaboração
com outros" .
Se olharmos ao nosso redor á procura de pessoas que procuram a anarquia nesse
sentido e a procuraram suspeitando que nela estava contido um principio plasmador
para uma nova sociedade, então encontraremos a personalidade deveras interessante
de Peter Kropotkin. Atenhamo-nos por alguns momentos a sua vida, por ser
ele uma personalidade em cuja vida os princípios sócio-ecológicos do entrelaçamento
associativo tem um significado excepcional.
O príncipe Peter Kropotkin viveu de 1842 a 1921 "Dividido" como os Cavaleiros
do templo, também tem em si uma polaridade. Aqueles tinham dado seu voto
sacerdotal, mas eram ao mesmo tempo cavaleiros, eram lutadores e ao mesmo
tempo dedicavam-se a oração. Kropotkin é cientista e revolucionário. Um observador
sagaz e pensador estimulante como geólogo e geomorfologista, é um cientista
moderno. Ele faz pesquisas na Ásia ate os confins da Sibéria oriental, colocando-se
a pergunta: qual seria o principio construtivo da terra. Ele faz a grandiosa
descoberta de que todas as forças plasmadoras na Ásia vão de sudeste para
o nordeste e na América de noroeste para sudoeste.
Ele recebe menções honrosas em Petersburgo da academia de geologia e em Moscou
durante um congresso de geomorfologia. Porem ele não é somente cientista,
é também um revolucionário. Ele descreve como após receber tais condecorações
em círculos científicos, aos quais comparece em seus trajes principescos,
muitas vezes toma um coche que o leva a um bairro na periferia de Petersburgo.
Durante a viagem troca seus trajes pelos farrapos dos proletários. Chegando
ao destino, some num local de reuniões esfumaçado no qual são feitos planos
revolucionários e onde se fala de novas formas sociais. La kropotkin é o
revolucionário, engajado em desenvolver novas formas de convivência humana.
No dia seguinte é novamente o celebrado geomorfologista que recebe condecorações
acadêmicas.
Finalmente ele é preso. Foge para a França e entra em contato com outros
revolucionários. La se da a grande disputa entre os anarquistas e os socialistas.
Qual é o motivo desse conflito?
Os anarquistas são de opinião de que nenhum partido deve ser formado, nem
o estado deve ser incluído na realização de idéias sociais próprias. Do outro
lado estão os socialistas. Tanto os socialistas quanto os anarquistas tem
os mesmos ideais, ambos querem empenhar-se pela classe operaria miserável.
Os socialistas acreditam, no entanto alcançar seu ideal formando um partido
e incluindo ativamente o estado.
Kropotkin, no entanto sempre esta mais convencido do principio horizontal,
da união associativa, sem hierarquia e centro de poder. Ele tem consciência
fundamental do tempo em que vive o por trás deste, do caráter revolucionário
destes pensamentos. Entre outros, ele escreve em suas memórias que o tempo
em que ele vive tem as mesmas dimensões como os séculos XII e XIII. "não
há época na historia em que as representações sociais existentes tenham sofrido
tanta transformação, com exceção talvez daquele período revolucionário nos
séculos XII e XIII, nos quais jazia o berço do desenvolvimento das cidades
da Idade media" . O principio do entrelaçamento mutuo se lhe tornou claro
já nos anos 70 na Rússia em seu contato com pesquisadores da natureza, principalmente
com o biólogo Sewerkow, que o leva a reconhecer que no ambiente natural do
ser humano existe uma surpreendente dependência e ajuda mutua. Desde la esse
principio da ajuda mutua nunca mais o abandona.
Entre 1890 e 1896, agora vivendo na Inglaterra, ele escreve artigos para
a revista "Nineteenth Century", que posteriormente são reunidos em seu conhecido
livro "Ajuda Mutua no desenvolvimento". No ano de 1898 é lançado "Fields,
factories and Workshope" (Campos, fabricas e oficinas), uma defesa da descentralização
da industria e, ao mesmo tempo, da associação baseada no interesse mutuo,
associação esta, de trabalho manual e espiritual de um lado, e de outro de
trabalho industrial e agrícola.
Com esta publicação ele entra em nítido contraste com Darwin. Este descreve
a vida como a "luta pela sobrevivência", como um mecanismo de seleção, como
sobrevivência do mais adaptável. Com isto vai surgindo uma hierarquia de
seres viventes. Quando teia pensamentos, na forma do Darwinismo social, se
transformam a realidade social, isto somente pode levar a uma concorrência
homicida e finalmente á luta de todos contra todos.
Em contraposição a Darwin, Kropotkin constata, sem dar uma conotação moralista,
que na natureza pode ser observada uma ajuda mutua extraordinariamente nítida.
Para ele, a natureza é uma grande tecelagem de dependências mútuas inter-relacionadas.
Isto encontramos por exemplo nas correntes da alimentação, onde um animal
providencia o alimento do outro; ou no intercambio de insetos e flores, como
nos animais que se avisam mutuamente em caso de perigo. Em toda parte esta
ajuda mútua pode ser constatada. A natureza é uma grande tecelagem ecológica.
Relacionado a isso pode ocorrer a pergunta como kropotkin teria chegado a
inclusão de que este principio ecológico proveniente da natureza pudesse
representar também um principio plasmador da sociedade humana? A partir de
suas pesquisas russas ele conhecia este principio como fato biológico. Porem
de onde lhe vem a inspiração, quando vai para o ocidente, de que o mesmo
principio no fundo também contem segredo plasmador para a sociedade atual,
para uma sociedade na época da alma da consciência?
É os direitos de todo revolucionários, de passar pelo menos alguns anos de
sua vida na prisão e que aí pode chegar a idéias que podem ser muito produtivas
para o resto de sua vida. Também kropotkin passa por esta situação. Aos 41
anos ele é preso. O local onde é mantido preso é o mosteiro de Clairvaux.
Em seu diário ele faz a anotação: "Em meados de março de 1883 vinte e dois
dos nossos com penas de prisão acima de um ano, foram levados para a prisão
de Clairvaux. Esta antigamente fora a abadia de São Bernardo; a revolução
a transformou em asilo de pobres. Mais tarde passou a ser prisão reformatória.
Logo depois de sua deportação para lá, a ala em que forem alojados provou
não ser moradia adequada, pois havia perigo de doenças e infecções. Kroootkin
pergunta ao diretor do presídio se não teria um alojamento mais adequado
para eles, após o que ele é levado para uma outra parte do prédio onde antigamente
ficavam os aposentos do abade... "Assim kropotkin consegue ficar preso durante
três anos naquela parte da abadia na qual o próprio Bernard de Clairvaux
trabalhou. Ele anota em seu diário que neste lugar ele tomou consciência
de que aquele princípio ecológico que ele conheceu na Rússia tem a ver com
novas formas da convivência humana".
Ao acima mencionado deve-se acrescentar algo essencial: vemos como nos templários
esta em fase de formação uma rede de diversas "unidades organizacionais",
como as denominaríamos hoje: uma rede de locais para oração, para vida e
para o trabalho, que é permeada por um fluxo de processos monetários e creditícios, que são administrados pelos templários em suas sedes.
Estes dois elementos, a rede associativa e os processos monetários despedaçam-se
no conflito entre anarquistas e socialistas. Em Kropotkin reencontramos somente
a imagem da associação, do entrelaçamento; a imagem do entrelaçamento mútuo
em sentido horizontal. Tanto nele como nas discussões dos anarquistas não
encontramos nada que diga respeito aos fluxos monetários que devem fluir
através da tecelagem social. Nos socialistas é o contrario: eles são aqueles
que começam a reorganizar-se verticalmente. Uma organização partidária leva
automaticamente a uma hierarquia partidária. Os socialistas se colocam em
oposição a proprietários a empregadores tornando-se assim involuntariamente
uma parte do sistema capitalista. Neste sistema, salário e lucro se tornam
cada vez mais os fatores preponderantes. No final, tudo gira em torno do
poder econômico. Com isto os bancos obtêm uma posição central neste sistema.
Entre estes dois elementos, de um lado a rede ecológica e do outro os processos
monetários que a percorrem surge um abismo ocasionado pela discussão entre
socialistas e anarquistas em meados do século XIX. Sabemos que as instituições
bancarias que se aproximam cada vez mais do ponto central do âmbito, social,
hoje em dia atuam de uma forma que através do poder do sistema monetário
ameaçam toda rede ou associação sócio-ecológica que se pretenda formar, todo
dialogo norte-sul que pudesse se iniciar, aquilo que nos templários, ainda
da certa forma, estava relacionado da maneira como era possível na época:
um primeiro inicio de formas sociais horizontais e processos monetários
que fomentam a vida e que durante o conflito mencionado despedaçaram-se,
aquilo foi novamente reunido por Rudolf Steiner. Atrás de ambos ele coloca
a imagem do ser humano, de modo que com essa base possamos compreendê-los
e através da qual podemos obter estímulos. Ao falar em trimenbração social,
de um lado ele descreve as instituições auto-geridas, reunidas entre si associativamente
e do outro lado os fluxos monetários que tudo percorrem, que se encontram
numa constante metamorfose de dinheiro de compra em dinheiro de empréstimos
e em dinheiro doado, nos templários encontramos apenas insinuações de uma
trimenbração da entidade monetária. Porem no século XX, no qual são retirados
tantos véus que escondem a realidade espiritual, a entidade monetária pode
mostrar seu semblante trimenbração.
A partir deste desenvolvimento, podemos tirar uma importante conclusão: se
não aprendermos a lidar com o dinheiro a partir de uma nova consciência no
sentido indicado pela Trimenbração, toda a rede sócio-ecológica será destruída.
Neste caso as conseqüências serão aquelas que podemos constatar nitidamente
ao nosso redor. Se não unirmos suficientemente e com a devida consciência
formações sócio-ecológicas, associativas, com os processos monetários que
as percorrem, então elas perderão todo seu sangue. A exigência da nossa época
de acordarmos para a verdadeira entidade e a importância do dinheiro que,
como processo, acompanha toda a realidade, é valida tanto para consumidores
quanto para professores, para operários como para os pais de escolares, tanto
para economizadores como para o crediarista, vale tanto para o terapeuta
que trabalha num centro de saúde como para pessoas que dirigem uma editora.
Pois todo momento em que uma dessas pessoas disser: "quanto ao dinheiro,
não tenho idéia, isto cabe ao responsável pelo caixa" ou : "não me interessa
o que esta contido nos custos de produção de uma mercadoria, o importante
é que lhe seja barato"; ou se uma delas dissesse: "Não me interessa saber
de onde vem o dinheiro que empresto, contanto que os juros sejam baixos;
ou também: " Não quero nem saber como meu dinheiro é empregado, o importante
são os juros mais altos possíveis"; sempre que alguém disser algo assim,
ele abrira uma brecha para poderes que pretendem destruir a tecelagem social.
Assim podemos conceber os templários como os preparadores do trabalho num
organismo social renovado num sentido cristão, um templo da humanidade. Podemos
reatar diretamente com os templários, se considerarmos como a tarefa da
atualidade a Trimenbração do organismo social e a menbração dos fluxos monetários
que o trespassam.