Boa
Tarde.
Muito
obrigado pelo convite do grupo.
Ute me falou sobre o significado e sobre o
objetivo deste grupo e eu acho muito interessante o que é trabalhado
conjuntamente aqui.
O
pedido que me foi feito é que eu fale um pouco sobre a Rússia e sobre a África.
Devo dizer que isto é impossível, pois não conheço a Rússia, conheço
apenas São Petersburgo e os russos dizem que São Petersburgo não é a Rússia.
Consegui entender um pouco isto. Toca-se nessa região apenas na superfície da
Rússia. E a África do Sul também não é a África. É um país específico
com uma história pavorosa e não penso que neste caso se possa generalizar
dizendo que, ao se falar nesse país, se está falando da África, pois a África
é muito grande, quatro vezes maior que o Brasil.
Vou
começar falando um pouco da Rússia. Na Rússia me preocupei com a pintura que
representa paisagens, porque um amigo russo havia me dito que essa representação
de paisagens pela arte russa é muito mais significativa que essa mesma arte na
França, na Alemanha e na Holanda. Sendo eu um acadêmico em Análise Histórica
da Arte, senti como uma afronta alguém dizer que esta arte russa era muito mais
significativa. Então notei algo em comum e que chamava a atenção em muitas
dessas paisagens que vi. Vou simplificar essa descrição: nessas paisagens eu
via que embaixo havia uma escuridão, o céu escuro cercado por árvores ou algo
que o sombreasse e entre esses dois espaços, a luz. Por exemplo, em uma
paisagem de uma situação dentro de uma floresta, as copas das árvores
fechando tudo e o solo da floresta com algumas manchas de luz. Ou então, uma
paisagem em geral escura e dentro dessa paisagem, uma casinha de camponeses que
estava como que iluminada de dentro para fora. Nota-se que havia um toque de
irracionalidade dentro de uma representação absolutamente naturalista e
racional. Só percebi isto porque eu tinha lido algo de Rudolf Steiner, onde ele
menciona a concepção do povo russo em relação à luz.
Isto me acontece com uma certa freqüência, que uma coisa dita por Rudolf
Steiner seja um ponto de partida para a minha percepção sensória, abrindo os
meus órgãos dos sentidos. Ele menciona que o russo vivencia a luz como se ela
brotasse de dentro da Terra. O Sol penetra na Terra e depois volta e penetra no
homem russo através dos seus pés e é dessa forma que o russo vivencia essa
luz. Esta é uma constatação que ao ser lida nem sempre é compreendida. E eu
sempre me perguntava: de onde Rudolf Steiner sabe isto, ele nunca esteve na Rússia?
E ele também nunca viu uma pintura, uma representação artística de uma
paisagem russa. Surgiu em mim à impressão que eu estava vendo esta afirmação
de Rudolf Steiner através das paisagens russas, a luz que surgia da Terra!
Nos
anos setenta pude fazer duas viagens à Rússia, e nessa época também tentei
andar o máximo possível a pé pela Rússia, dentro de sua paisagem. De um lado
tive a impressão que a paisagem era de uma certa forma tediosa, monótona, dois
mil quilômetros de floresta de bétula. Com o tempo comecei a perceber que
havia alguma coisa nessa paisagem que chamava a minha atenção, mas eu não
conseguia saber o que era. E em um determinado momento, meu amigo e eu,
encontramos um morro de aproximadamente oito metros de altura. Nessa paisagem
onde tudo era plano, esse morro nos pareceu como uma montanha. Escalamos essa
montanha e então olhamos em volta e percebemos que nessa planície russa, não
existe a possibilidade de se ver a linha do horizonte. Como linha do horizonte
entendemos que quando olhamos à distância, em algum lugar encontramos o fecho
dessa paisagem; ou então, caminhando entre duas montanhas, gradativamente vamos
sentindo como se elas fossem mudando de posição. Então, olhando para o
horizonte, principalmente quando ele apresenta certas estruturas, a gente
consegue ter a consciência de onde se encontra nesse momento. Viajando-se no
mar, por exemplo, pode-se viajar cem quilômetros e é sempre a mesma coisa e
também não é possível se saber onde estamos. Tem-se somente uma sensação,
a de estar no meio, sempre no centro. É assim também nessa paisagem plana da Rússia,
não dá para saber onde se está, só se sabe que se está no centro. Podemos
viajar mil quilômetros e sempre estaremos no meio. É uma forma mais ou menos
simplificada de se explicar isto, mas é mais ou menos assim.
Isto
significa que, nesse local, as pessoas não estão acordadas para a estruturação
do espaço, pois o espaço tridimensional praticamente não existe. Como europeu
originário da Europa Central, quando confrontado com essa situação e
analisando a nossa própria situação, fica claro que essa consciência e essa
autoconsciência que temos, essa sensação de nós mesmos se apóia nessa
capacidade de sempre saber onde estamos. Na floresta também não sabemos onde
estamos. Por esta razão o europeu não suporta a floresta. Tem que tirar o
mato, e isto é uma coisa meio arriscada.
Acrescentando-se
algo mais sobre a Rússia, lá nós encontramos os ícones. E o que é um ícone?
São pinturas representativas de imagens cristãs, santos, Cristo e Maria. Um
dos ícones mais sagrados é o de Maria com o menino Jesus, que foi pintado no século
nove.
O
ícone é entendido pelo homem cristão russo como uma janela. Não é você, o
ser humano, que olha pela janela, mas você é visto por aquilo que está por
detrás da janela. Os seres do mundo espiritual estão contemplando você quando
você está diante do ícone. O ícone central, o mais venerado de uma igreja,
sempre se encontra em cima de um tablado inclinado. Este ícone não está ai
para ser olhado, mas sim para ser beijado. No momento que nos inclinamos para
beijar, não vemos nada. Portanto o ícone é bi-dimensional porque a Igreja
Ortodoxa Cristã Russa proibiu que fossem feitas representações daquilo que é
sagrado numa dimensão tridimensional. Seria considerada uma coisa absolutamente
condenável representar o Cristo de uma forma tridimensional e colocá-lo dentro
do espaço.
Precisamos
entender essa idéia: aquilo que é espiritual não pode ser visto dentro do
espaço físico. Percebi então que a paisagem da Rússia é vista pelo povo
russo da mesma forma que ele olha para o ícone. Criei uma expressão para isto:
é o “olhar icônico”.
Após
dez anos de viagens para a Rússia, ficou claro para mim que o homem russo olha
para o mundo, para as coisas com este “olhar icônico”. Por exemplo, essas
pinturas das paisagens russas, que de um lado são altamente naturalistas,
chegam a parecer fotografias, quando são olhadas atentamente por nós, e elas são
muito grandes; algumas chegam a ter quatro metros de largura. Nessas paisagens
é como se, a partir de um núcleo interno, misterioso, que existe dentro dessas
paisagens, a luz como que brota.
Pergunta: Quando se
pensa nisto pode-se imaginar o efeito desastroso ou deturpador que teve a arte
realista do socialismo, porque nessa arte tudo é super tridimensional, até
mesmo as pinturas parece que são esculturas. Mais esculturas que pinturas. E
foram proibidas, os ícones e as pinturas das paisagens, eu não sei como isto
aconteceu, mas deve ter sido uma violência muito grande.
Dr. Peter: Para os
russos, a pintura que representa objetos é para eles a
arte abstrata. E aquilo que nós na escola aprendemos como sendo a arte
abstrata é para eles a arte concreta, porque para eles a nossa arte abstrata é
um louco campo de exercícios para o “olhar icônico”. Temos que considerar
Kandinski como bidimensional. E o homem europeu olha para as obras desse pintor
e diz serem abstratas. Vocês estão entendendo, eu inverti os conceitos agora;
para o russo é uma abstração imaginar uma fonte de luz e um objeto, e de uma
forma matemática relacionar a luz e o objeto. Isto para ele é uma abstração.
Concreto para ele é que os objetos têm uma luz própria e essa luz vem da
Terra, porque ela brilha, ela emite luz. A luz não a ilumina, mas ela própria
produz luz. Podemos reconhecer nessa atitude um impulso profundamente maniqueísta
(maniqueico).
Podemos
ver o ressurgimento da antiga sabedoria de Zaratustra. É claro que a Terra não
está emitindo essa luz, mas ela pode produzir essa luz quando ela é amada pelo
homem. O sentimento do pintor em relação a essa paisagem é o amor, e o russo
denomina a sua pátria, a sua terra, de mãe. O russo não tem patriotismo, mas
sim matriotismo, e essa palavra não existe em nossa língua porque os romanos
que criaram a palavra patriotismo
– de pater (pai) - não conheciam essa relação com a Terra. O impulso romano
que dominou a Europa sempre delimitou a influência russa eslava empurrando-a de
certa forma para o Leste.
Pergunta: Eu queria que
você falasse uma frase sobre o maniqueísmo, porque aqui no Brasil temos uma
concepção um pouco estranha.
Dr. Peter: Vou fazer um
pequeno desvio para poder chegar à resposta a esta pergunta. O Cristianismo
Romano proibiu que os evangelhos fossem traduzidos para dentro da linguagem do
povo, tinha obrigatoriamente que ser em latim, e isto até o século passado.
Havia então uma linguagem do povo e uma linguagem por assim dizer, espiritual.
Ou melhor, que deveria ser uma linguagem espiritual. Os povos eslavos desde o início
propagaram os evangelhos nas línguas dos vários povos. Os dois grandes
propagadores dos evangelhos no âmbito eslavo, Chyrilos e Metodo desenvolveram
uma linguagem própria, e inclusive uma escrita para conseguir propagá-los
entre os povos. Por um milênio e meio houve grandes embates e grandes conflitos
em relação a isso na Europa. O fato de a Rússia estar como que excluída,
separada da Europa, foi conseqüência desse conflito e desse impulso do Império
Romano. Desde o início foi sentido que no povo eslavo não existe um dualismo
entre aquilo que vive no povo e aquilo que é espiritual. Para eles sempre houve
uma união entre esses dois aspectos. O espiritual e o terreno se interpenetram.
A Terra para eles é como se fosse um ventre materno, um ser vivo, que o camponês
russo chama de cristã. A palavra em russo é cristiani, e serve tanto para
designar camponês, que trabalha a terra, como para designar cristão. E a
palavra Mir, significa ao mesmo tempo mundo e paz. Podemos ter então um pequeno
vislumbre de que o físico e o espiritual, na verdade, são as duas faces da
mesma coisa, são duas formas diferentes de se olhar o uno. Teoricamente nós até
conseguimos pensar nisso, mas não realmente vivenciar isso dentro de nós. A
velha religião de Zaratustra trouxe um impulso decisivo cultural de resgatar
essa Terra que estava cada vez mais mergulhando na escuridão, resgatá-la através
do trabalho no campo, do trabalho na terra.
Existem
no mundo da criação, seres espirituais escuros que almejam transformar tudo em
matéria escura, e outros seres espirituais que querem permear isto de luz, e
quando o camponês ara a sua terra ele está trabalhando conjuntamente com os
seres espirituais da luz. Isto significa que precisamos abrir a terra e fazer
com que a luz entre nessa terra. Isto significa arar. O homem quando se alimenta
do trigo amadurecido através desse pão, está de uma certa forma assimilando a
luz que veio através da terra. Isto seria uma forma, de através de imagens,
explicar o que significa esse impulso maniqueico.
Um
último exemplo; na linguagem russa não é possível dizer ‘eu possuo 50
euros’ ou então, ‘eu tenho um rubro’. Só é possível dizer ‘o rubro
está comigo’. Isto na sintaxe da língua. Isto significa que o sujeito é o
rubro, e eu sou objeto do rubro. Numa linguagem ocidental, o sujeito sou eu, e o
objeto é o rubro. Imaginem então um sistema econômico moldado segundo a visão
ocidental dentro de um povo que não é capaz de dizer ‘eu tenho um rubro’.
Vocês percebem então em que direção isto está apontando. A alma russa não
consegue efetivamente administrar uma conta bancária. Vendo uma conta bancária
o russo diria: “Chegaram para mim 1.000 rubros. Não tenho muita certeza de
onde veio isto e também não tenho muita certeza do tempo que eles vão
permanecer comigo”.
Ai
vemos a repetição do que falei no começo: o homem russo não consegue
absorver esse mundo dos objetos da mesma forma como nós o absorvemos. Trata-se
de uma parte do mundo onde há esta profunda receptividade materna. São pessoas
com uma grande capacidade de suportar sofrimentos.
Pergunta: Aconteceria o
mesmo com o povo árabe? Eles também não possuem em sua língua o verbo
‘ter’.
Dr. Peter: Entre os árabes
também é proibido cobrar juros. Como é que o mundo árabe pode concorrer na
economia globalizada se eles não podem receber ou pagar juros? Várias línguas
africanas também não possuem esse verbo ter, possuir.
Rudolf Steiner chama os russos de povo do Cristo, os alemães de povo do Eu e os
ingleses de povo da Consciência. Nesse esforço de superar o físico talvez
eles estejam preparando algo do futuro.
A
grande pergunta para mim é qual deveria ser a cara da Antroposofia na Rússia?
Os euritmistas também poderiam aprender alguma coisa na Rússia, a idéia de não
ter um espaço no palco estruturado através da luz, e que não se tem uma linda
estrutura tridimensional como é feita em Dornach. Educar o povo para que ele
continue desenvolvendo esse olhar icônico! O etérico não tem a
tridimensionalidade, o etérico é bidimensional. Isto na Rússia é possível e
vivo.
Pergunta: É justamente
na tridimensionalidade que a gente tem que se relacionar com a matéria para
encarnar o espírito; não estou entendendo ainda esta relação da
bidimensionalidade com o espiritual, como meta de encarnar realmente, de se
ligar com a Terra.
Dr. Peter: A pergunta
relacionada com isso é a seguinte: será que o homem russo deve se encarnar na
Terra da mesma forma que o homem ocidental? Quem é que pode julgar isso? Uma
encarnação assim é rápida, já passou. No ponto de vista russo a vida humana
é feita de diversas encarnações. Essas encarnações estão embutidas em um
período enorme. Um homem da Europa Central não tem nenhuma relação com a
reencarnação; o que ele tem é este mundo atual, e isto ele defende
solidamente. A inimizade existente, desde o início dos tempos, entre o
cristianismo ortodoxo e o cristianismo de Roma, passa exatamente por essa questão
da reencarnação e também pela forma de ver a vida.
Pergunta: O que o Senhor
está trazendo vem de encontro com algumas coisas que nós concluímos com nosso
estudo do índio.
Dr. Peter: Vivenciei em
vários momentos de minha vida a Rússia e o Brasil bem próximos. Estive lá e
vim para cá. Vivencio isto como se esses países fossem irmão e irmã, como se
fosse uma situação de irmandade. O caótico aqui e na Rússia é uma coisa
bastante similar, mas a partir de razões bem diferentes.
Ute: Agora o Dr. Peter
vai fazer um grande pulo ao Hemisfério Sul!
Dr. Peter: Na primeira
vez que fui para a África, naquela região ainda vi dois elefantes em
liberdade. Os outros elefantes já viviam em uma espécie de reserva na qual os
leões também viviam. Isto significa que os grandes animais já desapareceram.
As pessoas que habitavam esses lugares também já desapareceram, principalmente
aquelas que viviam mais na parte do Oeste da África. É uma região muito
grande, equivale ao dobro da França, uma região semi-árida, meio
desertificada. Vai em direção à Namíbia, Botswana, do deserto de Kalahari.
Nessa
região antigamente habitavam muitas pessoas, era um povo chamado Sam, os
ingleses os chamaram de “bushman”, os bosquímanos. Este era um termo
pejorativo, eram aqueles que viviam na capoeira. Um inglês não mora na
capoeira. Esses Sam’s eram pessoas muito especiais, maravilhosas. Hoje ainda
existem aproximadamente mil pessoas dessa tribo. Eram mortos a tiros, caçados.
Isto pode ser lido nos livros maravilhosos de Laurens van der Post. Hoje vemos
aquela paisagem quase que totalmente desabitada, em toda a Namíbia vivem hoje
dois milhões e meio de pessoas. Na minha cabeça eu sabia que era assim, mas
quando vi isso na realidade me assustei muito, pois as pessoas que viviam nessas
paisagens foram de certa forma eliminados por nós, europeus. O meu primeiro
encontro com a África foi uma vivencia de sentir vergonha, pois pude ver a
realidade que o homem europeu criou. Esse sofrimento indescritível como dizem
algumas pessoas, paira sobre todo o continente africano.
No
ano passado visitei um senhor que é um alto iniciado dos mistérios do Banto,
que vive na África do Sul. Seu nome é Vusamazulu Credo Mutuu, tem
aproximadamente oitenta e quatro anos, é quase cego, e nos anos sessenta tomou
uma decisão, de que as bases espirituais da cultura africana precisam ser
conhecidas e publicadas nas línguas mundiais, inglês, francês, alemão, etc,
porque os últimos iniciados dessa cultura estão morrendo. Virão tempos nos
quais nada mais se saberá das bases espirituais reais da África. Ele escreveu
um livro chamado ‘Indaba My Children’, no qual conta toda a mitologia Banta,
a história da criação, aquilo que nós conhecemos no Antigo Testamento, a
criação dos animais, a criação dos homens, como animais e homens se
desenvolvem conjuntamente. Os colegas dele, os bruxos, não gostaram de sua idéia
e o ameaçaram de morte, porque lá também impera uma lei muito severa que diz
que mistérios não podem ser revelados. Este iniciado também é um artista,
fazia grandes esculturas que foram queimadas. Ele tinha muita consciência do
fato de que de agora em diante era considerado um traidor, por revelar os mistérios
de seu povo. A pergunta principal que ele tinha era a seguinte: fala-se que
existem duas Áfricas, uma que é a África da escuridão, e outra que é a África
da luz. Essa África escura é a que eu conheço através de leituras, de filmes
e de relatos das guerras, das fomes, e de todos os desastres que aconteceram lá.
Atualmente essa África escura está se manifestando de uma forma muito forte e
está relacionada com o sentimento do medo. As pessoas sentem medo. De um lado
tem-se o confronto com os grandes animais, o que é uma coisa muito forte e
diferente de qualquer outro lugar, sendo a África o território dos grandes mamíferos.
Os animais nesse caso representam apenas a manifestação exterior de algo que
é muito mais amplo. A isto podemos chamar de mundo dos seres elementares.
Expressando isto antroposoficamente, podemos dizer que isto é a manifestação
de um mundo elementar no qual vivem e atuam os seres elementais. Esses seres
elementais são como nós e também poderíamos ler naquilo que foi publicado
através desse iniciado, seres terríveis, assustadores e inimigos dos homens. A
vida dessas pessoas que vivem nessas regiões e não aqueles que já moram nas
cidades, está completamente preenchida em criar e praticar rituais para fazer
as pazes com esses seres elementais. Este é um trabalho constante para
conseguir uma espécie de equilíbrio, para se conseguir viver com esses seres
elementais. Isto preenche completamente a vida anímica dessas pessoas. Podemos
imaginar, por exemplo, um europeu que chega a uma aldeia na África, e à noite
ele resolve sair de sua casa com uma lanterna. Ai, uma pessoa se precipita de
uma casa vizinha e bate nessa lanterna e faz com que ela caia no chão e diz:
‘Aqui agora reina a escuridão, você não pode iluminar nada aqui’. Outra
pessoa resolve que vai tirar uma fotografia à beira de um rio. Quando ele está
na eminência de tirar a sua foto, vem alguém e arranca a máquina de sua mão,
e muito bravo diz: ‘Você não pode fotografar isto aqui agora’. Eles não
voltarão jamais a esse lugar se você tirar essa foto.
Existem
muitos relatos de missionários dizendo: ‘os nossos povos precisam
gradativamente se emancipar dessa vida tão próxima e tão inter-relacionada
com esses seres da natureza’. Mas esses missionários cristãos europeus não
souberam contar nada do Cristo verdadeiro, pois só há a possibilidade de uma
gradativa soltura do homem desse mundo dos seres elementais, quando ele dirigir
o seu olhar interno em direção ao Cristo.
Dentro
dessas camadas africanas, existe ainda uma camada que é a camada da luz. Esse
iniciado dizia que os sacerdotes tinham como tarefa cuidar dessa luz. Isso
significaria na verdade, a educação do ser humano. Então esses sacerdotes
tinham a função de transformar todos esses rituais que estavam direcionados a
pacificar os seres elementais, de forma a não só cultivar a luz, mas também
gerar luz. Esse trabalho sempre foi considerado na África como a corrente Crística,
relacionada ao Cristo. O iniciado afirma que a África desde seus primórdios
sempre foi cristã, não católica, nem protestante, nem calvinista, mas cristã.
Acontece que a missão cristã européia só trouxe uma abstração do verdadeiro Cristo
para a África. Mataram os médicos magos, a vida ritualística foi declarada
como algo do demônio. Hoje a África de certa forma, se encontra entregue a
esses seres da natureza, que se tornaram maus porque não se praticam mais
aqueles rituais que ajudavam a essa convivência e a esse trabalho de pacificação.
Além disso, os europeus mataram todos os grande mamíferos...
Quero
colocar uma pergunta: onde ficou aquela grande potência espiritual que se
expressou através desses animais? Poderíamos de certa forma dizer que toda
essa grande astralidade que existia dentro dessa potência, se posicionou dentro
das almas dos homens, produzindo hoje essas coisas terríveis que vemos
acontecer na África, dentro desse nível da África escura. Esse iniciado
estava sentado e envolto em uma grande pele de animal que cobria suas costas,
cruzada na frente e disse: ‘Nenhum homem deveria ter a permissão de falar
sobre essas coisas sem que ele se envolvesse com uma pele animal. Porque esse
homem deveria sentir e de certa forma, se colocar na situação do animal, para
ter o direito de poder falar pelos animais’.
Esse
é um homem que conhece a filosofia européia muito bem, ele leu muito de Rudolf
Steiner. Pelo fato de todos os sacerdotes terem sido de certa forma eliminados,
esse trabalho de transformação do escuro para dentro da geração da luz não
pode ser continuado. E também pelo fato de ele saber que era o último dos
iniciados, tomou a decisão de anotar, escrever e publicar todos esses conteúdos
para que alguns brancos tomassem conhecimento disso, ou seja, soubessem o que
está acontecendo na África. Essa corrente cristã que permeia a África está
relacionada com a Etiópia. No Norte da Etiópia, em uma cidade chamada Lalibela
é que se encontra o verdadeiro centro de irradiação desse impulso crístico
na África. É a cultura cristã mais antiga em todos os sentidos. Existe então
uma relação entre os mistérios cristãos de Lalibela com os mistérios do
Graal. Do Oeste da Europa (França e Espanha), desde a Irlanda até o Zimbábue,
na África, existe uma corrente crística que atravessa toda essa região. Lá já
vive há milênios a sabedoria a respeito da Divina Trindade, e principalmente o
conhecimento a respeito do Filho está profundamente ancorado nas almas
africanas. A expressão "O Filho de Deus" está presente não só na
África, mas também em outras culturas, e não está limitada apenas à figura
de Jesus. Isto está relacionado a aquela história do Prestes João, que é o
filho de Feiferis que saiu da Europa e se dirigiu para o Oriente. Para todo o
Leste africano este iniciado diz assim: "Esta corrente crística é ligada
ao Prestes João". Na África houve um grande período de migração para o
Sul, pois o povo que ai habitava era originário da parte Central, mais para o
Leste. E a palavra Banto, como eles se denominam, é sinônimo de homem, de ser
humano. Existe uma transmutação fonética, e as palavras Ban e Man têm a
mesma origem.
Pergunta: O impulso crístico
do Prestes João ficou isolado? Porque ele não permeou os sacerdotes?
Dr. Peter: Na verdade,
esses sacerdotes apreenderam esse impulso do Prestes João que foi uma corrente
que permeou toda a África do Leste. Esta corrente mística foi destruída pelos
missionários europeus. Assim também na Europa essa corrente foi destruída
pelos sacerdotes que vieram de Roma. Os portugueses, quando conseguiram passar
pelo Cabo da Boa Esperança e chegarem à Costa Leste da África, deram o nome
de Natal a terra que ali encontraram porque chegaram lá no dia 25 de dezembro.
Levantaram uma grande cruz na Costa e os sacerdotes negros que viviam lá,
receberam esses portugueses de braços abertos, como irmãos, porque disseram:
“Eles também conhecem aquilo que nós sabemos, principalmente o sinal de
cruz”. Esse iniciado disse que o sinal da cruz é um símbolo que existe na África
desde os seus primórdios, por isso eles não fizeram nenhuma resistência aos
brancos, que foi uma grande tragédia, porque os brancos que vinham da Europa não
sabiam mais nada do Cristo. O que me impressiona é esta transformação
produzida pelos cultos no escuro que reinava lá, em luz. Aquilo que conhecemos
da transubstanciação do pão e do vinho, que o Prestes instaurou, sempre foi
uma coisa africana, comentou o iniciado.
Pergunta: Como provar isto?
Dr. Peter: Para ter uma
resposta, teríamos de perguntar ao Nelson Mandela, 27 anos em solitária na
prisão, e depois ainda conseguir sair disso com o coração cheio de amor! Na
minha opinião Nelson Mandela é uma das maiores personalidades do século. Isto
é a verdadeira transubstanciação. Observei uma vez uma foto de Mandela, de
quando ele era jovem, era um lutador de boxe e depois olhei para ele quando, aos
setenta anos saiu da prisão; comparando Mandela com Klerk, o holandês,
comparando fisicamente os dois, percebe-se que Mandela de certa forma conseguiu
até superar certos traços raciais, ele superou até o físico. Conheço uma
pessoa que conhece Mandela que me contou que muitas vezes acontece que alguém
que aperta a sua mão ao cumprimentá-lo, sente uma necessidade de chorar. Eu
quase choro só de pensar. Fui à ilha na qual Mandela ficou preso, visitei a
cela de 2x2 m, na qual ele se manteve por doze anos. Dentro desta cela ele
andava diariamente por volta de 20 quilômetros. Os prisioneiros que foram seus
companheiros relataram que ele nunca se ocupou com ele mesmo, mas sempre estava
preocupado com as outras pessoas. Ele escreveu uma autobiografia intitulada:
"O Longo Caminho para a Liberdade".
Esse
iniciado também falou que toda educação oferecida pelo Estado é uma coisa
completamente morta. Ele também me deu um conselho: “Procure achar e ver a
luz, não fique procurando pela África escura. E então, a partir desta luz, faça
pedagogia. Mas não é para ser uma educação ligada a uma igreja dogmática
católica, protestante, calvinista, etc.”. A Pedagogia Waldorf na África do
Sul seria uma resposta, e também hospitais para os doentes com Aids. Ele é
presidente de uma associação que constrói hospitais para aidéticos na África.
A África do Sul é a região da África mais ameaçada pela Aids. Existe uma
expectativa que nos próximos três anos, existirão três milhões e quinhentos
mil crianças órfãs lá, só na África do Sul. Lá não existem nem orfanatos
nem creches, os pais morrem e as crianças passam a morar na rua. Atualmente
esta é a maior catástrofe que está acontecendo na humanidade, e os americanos
ainda queriam fazer negócios em cima disso, vocês sabem, eles queriam direitos
sobre a lei das patentes e não queriam permitir a produção dos medicamentos.
Falando sobre este assunto, só nos resta uma nuvem de vergonha.
Ute: Acho que está na hora de agradecer em nome de todos.