Um pouco dos
Antecedentes e da Ação Colonizadora dos Portugueses
Quando, nos primórdios da Era Cristã, os
Romanos ocuparam a Península Ibérica, na expansão do Império Romano até a
França e Inglaterra, já encontraram no “Porto Caule” os celtiberos -
fusão dos iberos e dos antigos celtas – povo indo-germânico que ocupou
Portugal e o sudeste da Espanha (Aragão e Castela) além da Itália, Bretanha,
Balcãs, Ásia Menor..., saídos do Centro-Sul da Europa.
Ponta avançada da Europa,
confluência dos mares Atlântico e Mediterrâneo, Portugal tornou-se referência
importante no Império Romano, principalmente para os fluxos marítimos,
constituindo-se Lisboa e o Porto como entrepostos.
Na desagregação do Império
Romano (séc. III) os chamados “bárbaros” – aqueles que habitavam
fora dos limites do Império Romano – nas suas invasões ocuparam também a
Península Ibérica, no seu caminho para Roma e a Sicília. Assim, povos
Germânicos, Visigodos tornaram-se os novos habitantes das terras portuguesas. E
assim foi até a ocupação moura/árabe (mouro: habitante da Mauritânia –
Norte da África; árabe: oriente médio), no século VIII que, vindo do Norte
da África penetraram na Europa pela Península Ibérica, ocupando inicialmente
as regiões sul da Espanha (Granada, Córdoba, Sevilha) e de Portugal (Algarve,
Soure, Alentejo). Era o ano de 711 quando Tariq à frente de 18.000 berberes,
atravessa o Estreito de Gibraltar – Jab Al Tariq inicia uma conquista que se
prolongaria até o ano de 1492, ou seja oito séculos de influência. Em
Portugal foram cinco séculos de ocupação, sendo a expulsão do elemento mouro
somente no século XVI, no reinado de D. João II, o mesmo que muda a direção
dos Descobrimentos a cargo da Ordem de Cristo para a responsabilidade da
Companhia de Jesus e instaura a Santa Inquisição.
O povo português nasceria
desta mescla de raças acrescida do elemento negro que ao longo deste tempo também
entrou em Portugal, do Norte da África. Nem as regiões mais ao norte onde o
elemento nórdico predominava, escapou da miscigenação social. Povos de origem
semita (fenícios e hebreus) também participaram da composição racial do
homem lusitano.
Cada um contribui com suas
características para um “caráter” geral do povo português. A
característica mercantilista – um lado para onde fortemente se inclina a alma
portuguesa – parece ser um traço árabe/mouro acentuado pelos povos semitas
(fenícios, hebreus); por outro lado a “engenhosidade” portuguesa deve-se
sobretudo ao aporte “tecnológico” feito pelos mouros/árabes que dominavam
o “estado da arte” da ciência contemporânea, à época.
A ocupação árabe do Magreb
no século VII, que preparou a invasão da península ibérica no século
seguinte (711), daria ensejo, através de relações transaarianas, do contato,
inicialmente comercial com povos africanos, principalmente das regiões do atual
Sudão. Os árabes necessitavam de
minerais preciosos para financiar seus avanços territoriais e sua própria
estruturação como Estado de grandes dimensões territoriais.
Os africanos por sua vez
necessitavam de sal e manufaturas e principalmente de controlar diferentes
tribos conquistadas, com línguas e organizações diversas. A experiência
árabe com governo supra-nacional, administrando territórios conquistados e
deixando fluir as características locais, pode ser transferida a essas
populações, que com isso herdaram não só a prática
político-administrativa, como a língua árabe e o credo islâmico. Destas
regiões da África que iriam, no início do século XIX, provir os escravos que
levariam para o Brasil – inicialmente na Bahia (1805) – o islâmismo e as
primeiras escolas corâmicas da América.
No início do primeiro milênio
da Era Cristã encontramos um Portugal controlado pelos mouros/árabes que foram
realmente os operários, os técnicos, os lavradores. Ele (o mouro) quem deu às
coisas sua maior e melhor utilização econômica. Quem salvou das secas por
meio da inteligente irrigação; não só a oliveira (palavra latina) mas o
produto, azeitona, azeite (palavra árabe) ganharam melhor aproveitamento –
junto com as vinhas – pela utilização da ciência dos mouros. Foram eles que
trouxeram da China o algodão e o bicho-de-seda e da Pérsia
os cítricos e a cana-de-açúcar, que transplantada à Ilha da Madeira
serviu de base para a monocultura brasileira no início do período colonial. O
próprio “engenho” utilizado na manufatura do açúcar conservou o nome que
designa o fruto da engenhosidade moura.
A “picata ou cegonha”,
máquina para tirar água dos poços, a “nora” (termo árabe: naura) engenho
composto de grande roda d’água de madeira, onde através de uma corda se
prendem as ânforas de barros ou “alcatruzes” (termo árabe: al-qadus) para
elevar água nos campos, cujo suave “canto” embalava as tardes alentejanas;
o “calabre” ou cábrea – guindaste de duas ou três pernas que suportam a
roldana e a corda para movimentação de materiais, todas máquinas trazidas
pelos mouros para a Península Ibérica, deram um salto qualitativo na
produção agrícola de Portugal tornando-o à época o primeiro país da Europa
a ter uma produção agrícola com excedente à exportação. Por exemplo, o
trigo consumido na Inglaterra era totalmente produzido em Portugal. Os mouros
trabalharam e vincularam-se efetivamente à terra em Portugal e no sul da
Espanha, principalmente. Mourejar é sinônimo de trabalhar duro e
persistentemente!
O banho diário, noções de
higiene, o banheiro – e a
banheira –, os azulejos e a prática da medicina foram elementos
verdadeiramente civilizatórios para o povo português. A introdução dos
sofás (termo árabe: suffa(t)), dos divãs (termo persa: diwan) na casa
portuguesa ao lado de uma infinidade de comidas e doces que são hoje a marca
registrada dos portugueses, são na realidade “invenções” árabes.
Daí, até a expulsão dos
mouros de Portugal (século XIII) e Espanha (século XV – 1492) foram séculos
de trabalho das organizações religiosas e seus braços militarizados –
Templários, Ordem de Avis e outras, que culminaram na nova estrutura portuguesa
de produção: latifúndios na maioria geridos pela Igreja Católica e suas
Ordens Militares e uma nova burguesia mercantilista de predominância judaica.
Este poder mercantilista
centrado na confluência do Norte e do Mediterrâneo, trouxe também contatos
disgénicos através dos seus portos. Uma peste de origem oriental em 1348
assolou o reinado de Sancho I. Associada às epidemias, o projeto produtivo
português baseado no latifúndio levou à morte por escassez de víveres dois
terços da população do reino em 1356. Esta estrutura produtiva estava montada
sobre o regime de exploração do escravo mouro e moçárabe (cristãos vivendo
entre os árabes - arabizado) resultado das lutas para expulsão dos mouros da
península.
Mesmo medidas como a lei de
sesmarias de Dom Fernando (1375) visando o esbulho das propriedades dos
latifúndios improdutivos (reforma agrária!?), a redução do êxodo rural
pouco eficaz foi para conter o fluxo de mouros e moçárabes dos campos para as
cidades marítimas e comerciais onde viriam a constituir a nova “casta” dos
artesões sob a sombra protetora das cidades medievais (forais) burguesas.
No século XV, Portugal sob o
reinado de D. Fernando teve no seu filho ilustre, o Infante D. Henrique –
então Grão Mestre dos Cavaleiros de Cristo (sucessores dos Templários
franceses em Portugal) – figura proeminente e visionária ao fundar a Escola
de Sagres para instrumentar os portugueses na arte da construção marítima e
da navegação. Empregou cartógrafos e navegadores holandeses, árabes, judeus,
e genoveses para dar ao mundo uma nova era marítima com relevo para
a “caravela”: barco de características especiais em que a vela podia
enfrentar a navegação contra o vento com extrema eficácia quando comparado
aos barcos da época cujo “ângulo de ataque” não passava de 20o, enquanto
ela o fazia com 55o, com ganho de velocidade espantoso.
Depois do ataque surpresa e bem
sucedido à primeira cidade árabe no norte da África – Ceuta – (1415) que
os portugueses empreenderam, sentiram-se fortalecidos para novas aventuras no
mundo árabe. Ceuta na verdade era Septa – cidade das Setes Colinas – mas o
nome foi dado “de ouvido” – que representava no estreito de Gibraltar um
porto de confluência das caravanas de comércio que penetravam na África. Sem
elas Septa não era nada. Era só difícil de manter guarnições atacadas com
freqüência pelos árabes sem nenhum proveito para os portugueses. Mas dessa
aventura – na qual D. Henrique foi sagrado Cavaleiro – partiram para Tanger
(1437) e lá as coisas foram diferentes: o irmão de D. Henrique, D. Fernando,
foi feito prisioneiro e lá pereceu. Mas bastou a visão das caravanas vindas do
interior da África com seus carregamentos para que, com impulso do tesouro
Templário desatar o nó dos “descobrimentos”. Começando pelas costas
atlânticas da África: ouro e escravos. É a substituição dos escravos mouros
por negros. As cidades portuguesas chegaram a ter mais escravos negros que
brancos portugueses na composição das suas populações. Alí iniciava-se a
prática da reprodução de negros como produto de venda, incentivando a união
das negras com senhores, empregados e até com membros do clero. Nova
miscigenação na população portuguesa já muito mesclada.
Das costas da África, o
contorno do Cabo da Boa Esperança, por Vasco da Gama, o Oceano Índico, às
Índias. Estava aberto o “Caminho das Índias” ao comércio português que
não dependia das caravanas para ter acesso às especiarias, tão procuradas na
Europa. Assim nascem as colônias portuguesas como a de Goa e a ocupação de
ilhas e territórios da Índia. Era a passagem para o século XVI.
Do segredo português de
desviar o curso da navegação para oeste (Oceano Atlântico) para enfrentar as
costas africanas – instruções só divulgadas ao comandante de cada esquadra
na hora da partida – e poder com isso contornar a África é que em 1500 a
esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral “aumentou um pouco o desvio à
oeste” e “descobriu o Brasil”! Depois continuou sua viagem para as
Índias, o foco do mercantilismo português à época.
O mesmo segredo da “caravela”
compartilhado pelos espanhóis, levou Cristóvão Colombo, navegante genovês à
serviço dos reis católicos da Espanha (D. Fernando e Izabel) a aportar em
Santo Domingo em 1492, na América Central: estava descoberta a América!!
Antes, Colombo que se casara com uma filha de um fazendeiro português da Ilha
Madeira oferecera à Coroa portuguesa este “descobrimento” da América, o
qual a Coroa prontamente recusou, por conta do interesse no comércio com às
Índias. A proposta de Colombo era atingir as Índias contornando a Terra, para
surpresa de muitos que até bem pouco ainda julgavam que o oceano terminava numa
grande catarata!!
Da invenção da roda d’água
e das moendas, pelos mouros em Portugal para benefício da cana-de-açúcar e
produção de aguardente através dos alambiques: al-anbiq (outra invenção
árabe) – álcool é produto e termo árabe: al-kuhul! – instrumentou-se o
português, apoiado na experiência da cana-de-açúcar da Ilha da Madeira e na
prática já conhecida do uso de escravos negros, para colonizar o Brasil!
Estava aberta a temporada imperialista da exploração das terras brasileiras
pelo latifúndio escravagista.
O povo português não só traz
as marcas da mescla de sangue mouro e negro, mas traços acentuados pela imersão
no espesso caldo de cultura árabe que o longo convívio proporcionou: ora tendo
o mouro como dominador, ora como escravo. Isto persistiu nele e no seu caráter
e veio com ele para o Brasil, juntamente com os moçárabes.
Para suportar a ocupação,
inicialmente ao longo da costa brasileira, no século XVI – enquanto a coroa
portuguesa estava empenhada no comércio e na consolidação da “rota das
Índias” – os colonizadores
portugueses tiveram que capitalizar-se, armar-se e defenderem-se dos ataques e
invasões, sem nenhum apoio da Coroa Portuguesa. A mão-de-obra indígena
inicialmente utilizada não mostrou-se adequada a não ser na extração do
pau-brasil – nova coqueluche para as tinturarias de tecido na Europa onde a
cor vermelha e suas derivações eram de difícil e custosa obtenção, pois
provinha de certas conchas marinhas – de baixo rendimento – e até de pobres
insetos (“joaninhas”) recolhidos aos milhares no México.
Da exploração da população
indígena consolidou-se a prática de tomar as mulheres índias para concubinas
e esposas, que se prolongou nas zonas rurais da Bahia e Minas – até o início
do século XX. Basta lembrar que a primeira mulher branca aportou no Brasil
somente na metade do século XVI. Depois foram as mulheres negras escravas que
mais se prestaram a esta prática de procriação de mão-de-obra que avançou
até o século XIX.
“Nas condições econômicas
e sociais favoráveis ao masoquismo e ao sadismo criadas pela colonização
portuguesa – colonização, a princípio, de homens quase sem mulheres – e
no sistema escravocrata de organização agrária do Brasil; na divisão da
sociedade em senhores todo-poderosos e em escravos passivos é que se devem
procurar as causas principais do abuso de negros por brancos, através de formas
sadistas de amor que tanto se acentuaram entre nós; e em geral atribuídas à
luxúria africana”. Casa Grande
& Senzala.
“Para a escravidão,
saliente-se mais uma vez que não necessitaram os portugueses de nenhum
estímulo. Nenhum europeu mais predisposto ao regime de trabalho escravo do que
ele. No caso brasileiro, porém, nos parece injusto acusar o português de ter
manchado, com a instituição que hoje tanto nos repugna, sua obra grandiosa de
colonização tropical. O meio e as circunstâncias exigiram o escravo”... “Sentiu
o português com seu grande senso colonizador, que para completar-lhe o esforço
de fundar agricultura nos trópicos – só o negro” ... “Tenhamos a
honestidade de reconhecer que só a colonização latifundiária e escravocrata
teria sido capaz de resistir aos obstáculos enormes que se levantaram à
civilização do Brasil pelo europeu”.
Porém no alvorecer do século
XXI, carece de se lançar luzes sobre ao que de subjacente está ou esconde-se
no bojo de tal grave e desmesurada afirmação, principalmente vinda de autor tão
renomado como Gilberto Freire. Será que nem mesmo hoje é permitido questionar
o modelo a que se prestou esta colonização, modelo exportador que vem
estigmatizando a economia e a nação brasileira ao longo do tempo, só mudando
o protagonista: açúcar, ouro, café, minérios, soja... Serviu e serve a quem
este modelo? É caminho único para o desenvolvimento brasileiro, que nem a
magnitude territorial resolveu o problema da fome e a ela hoje se atribui nota:
zero!?
Embora a questão racial
brasileira nem beira aquela incentivada pela mentalidade protestante americana,
aqui muito ranço permaneceu. Assim, relembrar, refletir, carece sobre a
afirmação de Alexander Goldenweiser em
“Race and culture in the Modern World”, 1924:
“quanto é absurdo julgar-se o Negro, sua capacidade de trabalho e sua
inteligência, através do esforço por ele desenvolvido nas plantações da
América sob o regime de escravidão. O negro deve ser julgado pela atividade
industrial por ele desenvolvida no ambiente de sua própria cultura, com
interesse e entusiasmo pelo trabalho”. Ibidem.
Há que salientar, entretanto,
como um país de população tão minguada, como Portugal pôde controlar e
fazer desenvolver-se, simultaneamente, atividades no extremo oriente: Índia,
Japão, China; em várias partes da África e empreendido uma efetiva
colonização num extenso território como o brasileiro. Foi às custas da
mobilidade do seu restrito contingente admnistrativo-técnico-militar que, pelas
rotas de navegação comercial movia-se como peças de um quebra-cabeça de um
canto para outro do Império Colonial atendendo à “transferência de
experiências administrativas e tecnológicas”. Isto, entretanto, não
bastaria se a disponibilidade à miscigenação do elemento português não
fosse tão acentuadamente ativa – sendo no Brasil fator de formação de raça
e cultura – pela mistura primeiramente com as índias e logo depois com as
africanas. O caráter português já estava moldado pelas suas experiências
formativas na Europa e de tal forma
impregnado, que nem a igreja católica escapou; muitos dos seus sacerdotes e
missionários estiveram envolvidos com índias e negras, constituindo-se num
paradoxo aberto e público ao ferrenho princípio do celibato. Pena que ela não
pode torná-lo, já à época, um ato da vontade livre de cada clérigo, como
convém ao desenvolvimento de seres livres!
No ano de 1492, iniciou-se a
perseguição e expulsão dos judeus da Península Ibérica (Espanha). A
Inglaterra viria se beneficiar muito com esta mão-de-obra treinada, também
para lá transladada, incentivando a manufatura que faria a riqueza e o
fortalecimento da burguesia inglesa, que burlando o monopólio comercial
português realiza o comércio com o Brasil Colônia através do contrabando, e
com isso vai acumulando capital para suportar a sua “revolução industrial”.
As manufaturas inglesas necessitavam de matérias-primas e mercados consumidores
ampliados, principalmente para sua indústria têxtil, que inundaria o Brasil
com seus “tropicais ingleses” – tecido fino mas de lã, “muito adequado”
ao clima quente brasileiro das cidades litorâneas. Coincidentemente D. João
VI, fugindo de Portugal para escapar da invasão das tropas francesas, transfere
a Corte para o Brasil sob proteção inglesa e num gesto magnânimo “abre os
portos às nações amigas” em 1808. A Inglaterra domina então o comércio, e
sua influência sobre as iniciativas brasileiras estende-se até os princípios
do século XX. É nesta esteira do livre comércio e para atender a nova ordem
industrial é que nasce a necessidade de apartar o Brasil de Portugal,
retirando-o do monopolismo mercantilista português, simultaneamente com a
supressão da escravatura: estava aberto o caminho para nossa independência em
1822!
A Inglaterra e os Estados
Unidos já haviam proibido o comércio de escravos na esteira da abertura de
fronteiras comerciais à sua manufatura nascente e assim a partir de 1808 “os
ingleses se instalaram firmemente em Salvador, intensificando uma atividade
comercial e financeira que já antes, vinha se afirmando de maneira progressiva.
Houve um “boom” econômico que produziu geral euforia entre as classes
possuidoras”. A Revolução dos Malês – Décio Freitas. Ed. Movimento.
Entretanto, o tratado imposto
pelos ingleses e assinado por D. Pedro I em 1827 para a extinção do tráfego
de escravos não surtira efeito e o mesmo Imperador era deposto em 1831, quando
tentava dar-lhe eficácia. Os ingleses haviam condicionado o reconhecimento da
independência ao cumprimento deste tratado.
“O problema essencial que se
apresentava à classe dos senhores de escravos, consistia em fazer a revolução
sem sacrifício da instituição escravagista. A revolução anti-colonial não
podia se transmudar em revolução social”.
Por outro lado, os interesses
portugueses fixados no monopólio mercantil seriam ultrapassados pela iminência
da perda de 4 milhões de cruzados emprestados aos senhores de engenho, os quais
viam na independência do Brasil a única forma de livrarem-se da enorme
dívida, pela expulsão dos portugueses. É por isso que a “independência
ordeira” preconizada por José Bonifácio de Andrade e Silva, temendo na
realidade as revoltas escravas, foi na Bahia, onde concentrava-se os interesses
maiores, muito violenta. Os comerciantes portugueses resistiram com ajuda dos
militares e parte da população urbana e só foram vencidos após nove meses de
luta cruenta. Os acontecimentos no
Haiti, onde a revolta dos escravos negros foi vitoriosa e violenta para os
senhores brancos, estavam na pauta do dia dos dirigentes brasileiros.
“O antagonismo completamente
inconciliável entre as duas principais classes da sociedade brasileira,
escravos e senhores de engenho, conferiu à nossa revolução de independência
um cunho trágico. A independência não se interessou pelos escravos e os
escravos não se interessaram pela independência. Ibidem.
A dívida brasileira mudava de
moeda. Não eram mais cruzados (portugueses) e sim libras esterlinas (inglesas).
Um novo capítulo se iniciava com o Brasil independente. Mas a situação dos
escravos ia de mal à pior. A proibição do tráfego em 1831 só fez
alimentá-lo através do contrabando, até a sua supressão em 1850. Agora as
decadentes economias açucareiras do norte e nordeste davam lugar àquelas do
Rio e São Paulo – o café. Então o tráfego interno de escravo ganha
evidência e segue assim até a abolição da escravatura em 1888, quando já
não mais compensava esse tipo de exploração de mão-de-obra, a exemplo da
agricultura norte-americana.
“Sudão Ocidental – outra
área de interpenetração de culturas, a negra propriamente dita e a maometana;
região de grandes monarquias ou reinos – Daomei, Benin, Axanti, Harissa,
Bornu, Iorubá, sociedades secretas de largo e eficiente domínio sobre a vida
política; agricultura, criação de gado e comércio; notáveis trabalhos
artísticos de pedra, ferro, terracota, tecelagem; fetichismo e maometanismo.”
“Aos Sudanês, Nina Rodrigues dá a “proeminência intelectual e social”
entre os negros importados para o Brasil, parecendo-lhe filiarem-se à
organização religiosa dos sudaneses maometanos, não só o movimento de 1835
da Bahia, mas outras revoltas de senzala”. Casa Grande & Senzala,
Capítulo IV.
“Notou o abade Étienne que o
Islamismo ramificou-se no Brasil em seita poderosa, florescendo no escuro das
senzalas. Que da África vieram mestres e pregadores a fim de ensinarem a ler no
árabe os livros do Alcorão. Que aqui funcionaram escolas e casas de oração
maometanas”. (“La Secte Musulmane des Malés du Brésil et leur Révolt em
1835”. Anthropos, Viena, Jan-Mar, 1909).
Nas revoltas dos escravos na
Bahia: a intentora de 27 de maio de 1807, reprimida por delegação de um
escravo, foi cuidadosamente organizada por escravos ussás (haussás),
maometanos, versados no árabe e seguidores do Corão. Foi um movimento
preparado conjuntamente com uma rebelião no Recôncavo. “Haveria uma matança
dos senhores, e, uma vez vitoriosos, constituiriam um governo, elegeriam um rei
e se apossariam das embarcações surtas no porto para retornar à África”.
A Revolução dos Malês.
Estes mesmos ussás
reorganizaram-se e lideraram em fevereiro de 1814, com sucesso a destruição e
libertação dos escravos das “armações” – estabelecimentos de pesca e
beneficiamento da baleia, cujas principais, localizadas na costa de Salvador
eram: Rio Vermelho, Itapoá, Itaparica, Ponta D’Areia, Amoreiras e Gameleira.
O sucesso foi parcial, desta vez por falta de armas e por elas vencidos pelas
guarnições portuguesas. Neste mesmo ano os haussás lideraram outra intentora
marcada para 23 de junho de 1814 com a participação dos escravos em revolta no
Recôncavo. Nova delação e o levante foi sufocado. Seguem-se outros levantes
em 1826 e 1828 com grandes fugas para os quilombos. Outras revoltas de iorubas:
no Recôncavo em 1829 e Salvador em 1830. Isto deu ensejo ao Código Criminal do
Império voltado à repressão das insurreições escravas.
No movimento insurrecional de
1835, os haussás tiveram como aliados os iorubás (nagôs) agora superiores
numericamente e tão desenvolvidos quantos os primeiros, a ponto de já
emprestarem sua língua como língua geral dos negros baianos. A denominação
“Revolta dos Malês” deve-se a designação que os brancos davam a todo
negro mulçumano, termo empregado de maneira pejorativa.
Desta vez, amadurecidos pelas
experiências passadas, os negros organizaram-se numa aliança política entre
as várias “nações” de escravos e conceberam um ataque visando à tomada
do poder em Salvador e na Bahia. O movimento foi conduzido por uma organização
clandestina com mil a mil e quinhentos membros entre eles, muitos escravos já
libertos. A proposta primeira era massacrar todos os “brancos e mulatos” e
libertar os “negros”. Os
mulatos, integrados no sistema eram considerados inimigos pelo desprezo e
maltrato que dedicavam aos negros. Os detalhes do plano militar estavam escritos
em “caracteres arábicos” e definida a madrugada de 24 de janeiro de 1835,
véspera da festa da N.S. da Guia no Bonfim.
Na noite de 24 houve a delação por excesso de falas esparsas e as medidas
preventivas tomadas na mesma noite retirou a vantagem do elemento surpresa,
fracassando a insurreição pois a ação principal, que era a tomada do quartel
e da cadeia para libertação dos outros escravos prisioneiros, fracassara.
Seguiu-se as ações repressivas e entre elas o encarceramento dos mestres de
todas as escolas corâmicas e de todo negro suspeito de adesão ao credo
islâmico. As condenações usaram como prova até a posse de papéis escritos
em árabe. Além das penas de morte, flagelo e prisão foi acrescida uma
especial: deportação dos africanos libertos.
Os relatos historiográficos de
Casa Grande & Senzala, dão conta das externalidades ligadas aos
descendentes de moçárabes, através dos quais tantos traços da cultura moura
e árabe se transmitiram ao Brasil. Traços de cultura moral e material:
a doçura no tratamento dos
escravos;
o ideal de mulher gorda e
bonita de que tanto se impregnaram as gerações coloniais e do Império;
o gosto dos voluptuosos banhos
de gamela ou de “canoa”;
o gosto da água corrente
cantando nos jardins das casas-grandes;
sistema das crianças cantarem
todas ao mesmo tempo suas lições de tabuada e de soletração como nas escolas
maometanas;
hábito das mulheres irem à
missa de mantilha, rosto quase tapado como o das mulheres árabes;
casas coloniais com requinte
das poltronas e dos sofás estofados, dos tapetes orientais;
tantas rezas e cerimônias de
pura tradição maometana.
Na arquitetura, diversos outros
valores materiais absorvidos da cultura moura ou árabe pelos portugueses,
transmitiram-se ao Brasil: a arte do azulejo, bicas e chafarizes; a telha
mourisca; a janela quadriculada ou em xadrez; a gelosia; o abalcoado; as paredes
grossas.
Existe um fato pitoresco ligado
aos muxarabies (balcões) que ornavam os segundos andares das casas coloniais e
se debruçavam sobre as calçadas, circundados pelas venezianas que permitiam
ver o exterior sem ser visto de fora.
No Rio de Janeiro, durante o
Império abundavam casas com o muxarabi (balcão) e era através dele que as
recatadas e preservadas senhoras podiam olhar o mundo exterior e até se
comunicar com ele através de bilhete, lenços caídos... Os maridos –
senhores respeitosos e respeitados – uniram-se e numa ação inusitada
conseguiram da Câmara um dispositivo legal que apareceu sob forma de reforma
urbana – com todas as justificativas arquitetônicas e paisagísticas –
determinando a imediata demolição dos aconchegantes e românticos muxarabies.
Cumpra-se! E assim foi que este elemento mouro/árabe desapareceu da paisagem
urbana do Rio. Coisa de português, quer dizer de brasileiro! Mas isto se deu no
século XIX, há mais de um século!
Faltam elementos
historiográficos para acompanhar a trajetória da corrente islâmica ao longo
da nossa história e principalmente como conviveram no seio da sociedade
brasileira, não só estes primeiros negros de credo islâmicos – que tiveram
uma recepção digna de um “cristo” – como também os moçárabes que aqui
aportaram. Como será que povos de outras nacionalidades, mas deste mesmo credo,
encontravam aqui espaço para a prática do islâmismo? E puderam reconhecer
estas presenças islâmicas dos tempos coloniais?