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Cultura Afro-Brasileira

Material de Estudo Grupo Pindorama - Estudo da Alma Brasileira

O Povo Banto 

Palestra de Walmir Damasceno [Tata Katuvanjesi]

 

Saúdo a todos com a mensagem tradicional do povo Banto que é o dialeto Kimbundu:

Kua kioso kutambujila kiami dikamba ia kiami mapangi
[Eu vos saúdo meus amigos e meus irmãos]
Kua Nzambi bana kibuku uà kioso
[Que Deus dê prosperidade a todos vocês]


Eu sou Walmir Damasceno e meu título religioso é Tata Katuvanjesi, Diama Nganga diá Inzo Tumbansi Ia Nzambi Ngana Kavungu (Supremo Sacerdote da Casa Pedaço de Terra do Deus Senhor da Rafía), Tata quer dizer em Kimbundu, pai, Katuvanjesi quer dizer aquele que tira e que dá. Sou sacerdote de candomblé da tradição de Angola-Congo. Sou baiano da região de Ilhéus. Iniciado no candomblé em 22 de setembro de 1974 no Terreiro Santa Luzia Tombeisi Filho, no bairro da boca do Rio, em Salvador, e sou descendente direto do candomblé da primeira mãe-de-santo, aquela que fundou o primeiro terreiro de candomblé de Angola no Brasil, Maria Genoveva do Bonfim. É engraçado, porque esta senhora, é uma gaúcha que saiu de Porto Alegre, foi para a Bahia onde fundou um candomblé de origem banto, juntamente com o seu pai de santo, um angolano que na Bahia herdou o nome de família nobre de Roberto de Barros Reis, isso por volta de 1901.
Sou jornalista de profissão. A minha função dentro do candomblé é atendimento espiritual-religioso, e sou chamado popularmente de pai-de-santo. Sou responsável pela condução de um templo-terreiro, do qual fazem parte pessoas de diversas classes sociais.
Fui predestinado a desenvolver esta atividade e cumprir esta responsabilidade. Fui iniciado no candomblé aos onze anos de idade porque não andava, me arrastava pelo chão e meu corpo era cheio de feridas. Meus pais, pequenos lavradores, eram católicos fervorosos e não acreditavam que a tradição africana pudesse me trazer a cura. Tinham aquele medo causado pelo preconceito e pela discriminação. No entanto uma tia me levou a um terreiro de candomblé, onde eu fiquei enclausurado por três meses passando pelo processo iniciático. Só após essa iniciação e ser tomado pela entidade, pela divindade, é que comecei a andar aos poucos.
Saí da Bahia em 1987 para São Paulo e chegando aqui me encantei com esta selva de pedra. Fiquei, e passei a fazer um trabalho de resgate da cultura banto no Brasil. É um trabalho que hoje ultrapassa as nossas fronteiras, e a intenção é conhecermos o que existe na África Central e o que há aqui no Brasil. Com o meu trabalho de pesquisa, pude verificar que o Brasil tem uma alma banto e essa alma se verifica nos costumes do povo, nos falares, na maneira de ser do brasileiro, na mulher, na menina, no moleque, - aliás, moleque é uma palavra banto, como também é banto, a palavra bunda, “Bunda” é a língua mãe de todos os dialetos angolanos e assim, aqui no Brasil nós também falamos um pouco da “língua bunda”. Estas palavras fazem parte do dialeto kimbundu, e dele temos uma grande quantidade de palavras inseridas no nosso vocabulário, como: quitanda, samba, zumbi, xinga, jinga que é a corruptela de uma das grandes heroínas que lutaram pela libertação de Angola quando os colonizadores a ocuparam, ou seja, a rainha Jinga ou Zinga,. Como eu venho de uma tradição de candomblé que quase que erroneamente foi engolida por outra tradição, tive a preocupação de buscar a minha identidade cultural-religiosa porque nem só de orixás se constitui o Candomblé. Os brasileiros de maneira geral, desconhecem que as primeiras divindades em terras brasileiras foram as da tradição banto, denominadas de Nkisi (magia), para os Kikongos e Mukixi para os Kimbundus, em Angola. As culturas banto tradicionais e religiosas são divididas em segmentos. A cultura de Nkisi cujo desenvolvimento do processo não cheguei ainda a entender, deixa a maior marca na cultura brasileira, no tocante à questão religiosa do candomblé da nação Angola. O que mais permanece é o Nkisi Congo, sendo os costumes angolanos. Precisamos entender como, sendo o contingente de escravos que vem de Angola, o maior, o que restou de significativo foi o Nkisi que veio do Congo. Ainda não chegamos a uma conclusão, mas esperamos conseguir isso no futuro. Também nos chama muito a atenção, o Maracatu, sempre presente no candomblé de Recife e Olinda, e que apesar de ser banto toma a forma ioruba. Em Minas temos as Congadas, e na Bahia, as festas em homenagem a Cosme e Damião que são feitas principalmente pelo povo simples. Esta cerimônia feita pelos baianos, é igual à da África banto. Uma vez por ano, meninos e meninas se sentam no chão, e sobre folhas em suas mãos, são servidas comidas ritualísticas, especialmente em Malanje e Mbanza Congo no norte de Angola. Na Bahia isto ficou muito marcado com a prática de servir o caruru. As festas profanas do Bumba meu Boi também são atividades banto que estão encravadas na alma dos brasileiros. Na gastronomia, os nordestinos têm a tradição de cozinhar o feijão com legumes, quiabos, abóbora, o que também é uma contribuição banto para a construção da forma brasileira. É por isso que digo que o candomblé no Brasil não é só de orixás.
Quando os iorubas aqui chegaram já encontraram os bantos semeando toda esta beleza no nosso país. Temos um país com alma banto. A cultura, a música, a dança como o samba, dentre outras expressões culturais, estão totalmente impregnadas pelo Banto. Alguns costumes, como o de dar um pouco de cachaça para o santo antes de ingeri-la, são tipicamente banto. A importância dada aos ancestrais, que se vê em poucas culturas, é banto também. Temos o costume, de agradar ao nosso ancestral, ao nosso antepassado, antes de comer, e na nossa tradição religiosa de Angola, para o seguidor ser iniciado, tem que ter um parente consangüíneo, de primeiro ou segundo grau, já falecido; a alma daquela pessoa será a sua sorte, caso contrário, a pessoa não terá condições de passar pelo processo iniciático. 
Dá-se muita importância ao antepassado. Se o morto me dissesse que eu não poderia vir aqui, eu não viria. Consultamos os nossos antepassados para tudo, sobre o que vamos dizer, sobre a decisão que vamos tomar, etc. Eu tenho meu avô, minha avó e meu irmão mais velho e é costume os chamarmos de sombra. Se não tiver a sombra de um parente, a pessoa não tem condições de passar pelos ritos de iniciação. Por outro lado, não se podem reverenciar pessoas que tenham sido assassinadas ou se tenham suicidado.
É diferente da tradição ioruba, onde o tratamento desta questão do ancestral, tem um culto próprio. Em uma cerimônia religiosa ioruba, se uma pessoa é tomada, este espírito é afugentado. Na tradição banto, ele recebe uma espécie de doutrina. Se por exemplo meu vizinho morrer e tiver sido uma boa pessoa, eu posso invocar o seu espírito para fazer parte de minha casa. O Ioruba chama isto de Egum. Uma entidade ioruba não se manifestaria se no local, estivesse uma pessoa tomada por um ancestral. Na tradição banto o tratamento do morto tem importância fundamental e isso também está na alma do povo brasileiro, quando por exemplo, ele reverencia as fotos dos mortos.
Mesmo nos terreiros de candomblé de influência banto, nos deparamos com muita resistência na realização deste trabalho de pesquisa, na tentativa de resgate das tradições banto, bem como para repassar essas informações aos nossos seguidores. Isto acontece porque esta cultura quase foi engolida pela cultura chamada de Nagô, na Bahia. Os Bantos se retraíram, não tinham privilégios nenhuns, eram analfabetos. Foram deslocados para trabalhos pesados na agricultura e ficaram afastados das grandes metrópoles. Os Ioruba ao contrário, ficaram nas casas grandes e nas grandes metrópoles.
É curioso que particularmente o Rio de Janeiro, tenha sido a maior praça banto do país, apesar dos navios atracarem na Bahia. São muito comuns também no Rio de Janeiro, manifestações de espíritos simples, e nesta cidade encontra-se com freqüência, devotos de Zé Pelintra e de Pomba Gira, que é uma entidade que faz evoluções, de um lado para outro, de forma amalucada. Esta entidade que nasce no Rio de Janeiro é freqüentemente confundida com a divindade angolana Pambu Njila que é homem, e significa aquele que se desviou do caminho. Nos cultos bantos ninguém é tomado por entidades, ditas aqui, da lua, para se iniciar e também não existe uma entidade feminina que incorpora. Da mesma forma que tem um espírito de criança com presença muito forte no calulu, a entidade Vunji também incorpora às vezes como criança. Ela é uma senhora de idade, e também a divindade patrona da justiça. Corresponde a Xangô para os Iorubas e no Brasil ela se apresenta como um espírito de criança. Há alguns dias atrás, um filho de santo meu, ficou assustado quando lhe revelei que o seu santo era uma entidade feminina. Mais exatamente, uma entidade ligada à fecundidade e que protege os casamentos, mas ele não entendeu bem; a explicação não foi fácil. Os terreiros de candomblé são verdadeiras embaixadas, é terreno neutro. Se alguém se esconder ali, nem a polícia o consegue pegar. Há outra diferença com relação aos Iorubas. Para estes, Exu que é o senhor dos caminhos, é absolutamente o homem e o orixá. Entre nós isso muda, quem é encarregado de fazer esse mesmo trabalho é o morto. Seria o Egum para nós. O candomblé hoje passa por um grande processo de transformação em virtude das discussões amplas entre as lideranças, os sacerdotes e os seguidores. Apesar de ser a Bahia a terra mãe desta nossa cultura, o maior pólo das discussões da religião afro brasileira, é São Paulo, e os fóruns de discussão são os congressos que acontecem no eixo São Paulo-Rio. Estes eventos têm-se transformado em espaços para a organização do candomblé expurgando os conceitos negativos, tentando educar as crianças, que é a força nascente. Existem influências de outros segmentos religiosos no candomblé que distorcem a cultura e a religião, daí a preocupação de usar os espaços que ficam ociosos para o trabalho social e ecológico, como assistência à população, campanhas de prevenção ao vírus HIV, doenças sexualmente transmissíveis, campanhas do agasalho etc., São abordagens novas. Quem tem espaço físico, providencia creches onde crianças pobres são assistidas, e assim, o candomblé vai atuando conforme os evangelhos. A minha visão é um candomblé do futuro, melhor organizado, apesar de que essa nova organização depende das casas mães. Se por um lado Pierre Verger contribuiu para a divulgação da tradição de orixás, por outro ele promoveu um processo de branqueamento do candomblé. A iniciação é assim: uma pessoa para ser iniciada tem que participar da comunidade religiosa e no início é um Ndumbe (ignorante, leigo). O mesmo que Abiã para a tradição de orixás. Essa pessoa passa a participar dos rituais no terreiro e o seu desenvolvimento na casa será acompanhado pelo sacerdote. Comigo foi diferente porque a cura da minha doença foi encontrada a partir do momento em que fui iniciado no candomblé. Fui recolhido a um quarto e em determinados dias saía para fazer um certo ritual ou trabalho, como se estivesse sendo arrancado de mim algo ruim, uma coisa que certamente estava atrapalhando a busca da minha saúde. Fazia banhos de infusão com folhas às quatro horas da manhã, eram feitas rezas com a mão sobre a minha cabeça, e procede-se assim para melhor aproximar a entidade do fiel, e até para saber qual será a melhor entidade para aquele fiel. Eu fazia então o que se chama descarrego. Precisava abster-me totalmente das coisas externas. Permaneci “internado” por três meses. Há ritos de circuncisão até chegar ao dia em que a pessoa é tomada pela entidade e se apresenta publicamente no barracão. As pessoas de fora não podem participar, e mesmo as de dentro, são escolhidas. A minha incorporação foi inconsciente. Não me lembro de nada. O santo aqui no Brasil é individual. Eu sou de Nsumbu, se fosse na África, toda a minha aldeia teria que ser também de Nsumbu. Aqueles que têm o dom da incorporação são tomados pelo santo e ficam longo tempo sob sua influência. Nesses rituais, a cabeça da pessoa é raspada, a sacerdotisa entoa várias rezas e cantigas e com uma navalha, vai raspando o cabelo do iniciando. Essa desfiguração vem a ser o nascimento. Alterna-se esse processo de raspagem da cabeça e da maior parte dos pêlos que a pessoa tem no corpo, e faz-se uma outra cerimônia onde o fiel perde o seu nome civil. Eu sou Valmir Damasceno dos Santos, este é meu nome civil, mas para que feitiços não me atinjam, eu perco esse nome, e o outro nome que ganhei neutraliza o feitiço que alguém possa querer enviar para mim, que sou filho de santo. Isso na tradição banto. Nós temos dois nomes, melhor dizendo, três, um secreto que jamais pode ser revelado sob qualquer pretexto, outro que é revelado na comunidade, além do civil. No momento em que sou diplomado pai de santo, com todas as cerimônias ritualísticas, o meu segundo nome que a comunidade pode conhecer, é-me revelado. Os filhos de santo, no entanto não conhecem seus nomes secretos. Somente eu, conheço os nomes dos meus filhos de santo. A partir do momento em que eles atingirem a maioridade dentro da religião, eu posso revelar esse nome ou não, verificando-se a confiabilidade para com o pai e a comunidade. O santo vem e revela o nome, na data oportuna, de acordo com a sua própria vontade, no ouvido do pai de santo. Mas pode acontecer que o último não mereça a confiança do santo. Assim o santo faz o outro ficar tomado, não escutando o nome. Na minha casa é comum que quando se fala na palavra Nsumbu, os filhos de santo batam a cabeça ou elevem as mãos em sinal de respeito. De uma forma geral a ligação da entidade se faz com a cabeça. Este costume entretanto, é mais ioruba, porque o banto sinaliza o coração (muxima). No séc. XVI chegaram os primeiros povos bantos ao Brasil. Uns vieram de Angola, outros do Congo e outros ainda, do Gabão. Este era o local de partida. Aqui formaram quilombos tentando lembrar um pouco das suas terras e culturas e começam a desenvolver as suas práticas religiosas. O primeiro nome a ser pronunciado foi Zambi Mpugu que significa Deus todo Poderoso. Chamar candomblé a esta religião, só vem a acontecer muito depois. O meu bisavô veio escravizado na última leva de escravos angolanos que aportou no Rio Grande do Sul. Lá conheceu a Sra. Maria Genoveva, Dona Nenê, iniciou esta senhora e foi para a Bahia. O primeiro terreiro do Brasil é fundado por ela.
Temos vários rituais que se assemelham aos rituais banto, como por exemplo os de iniciação que contêm a circuncisão praticada pelos quimbandas ou sacerdotes; a dissicuração, o rito de Nkita, muito comum nas aldeias de Angola e que existe aqui no Brasil também. Consiste em amarrar folhas e ervas por todo o corpo do iniciando, soltando-o na mata com uma cantiga e uma reza própria. Ele tem que voltar para provar a existência da entidade que está incorporada. Isso é feito em Salvador, no Rio de Janeiro e no Triângulo Mineiro. Se a pessoa tem o dom da incorporação, o sacerdote investiga para saber qual é a entidade que incorpora. A Umbanda, cuja palavra é kimbundu, e significa regra, é uma religião que traz em seu bojo um pouco de tudo, isto é, inúmeras variantes do candomblé. No Gêge-Mina é muito comum a presença do caboclo. A Umbanda é uma tradição que ficou muito perto da tradição de Angola. Talvez até por causa da língua portuguesa, houve uma certa união da Umbanda com o Candomblé. 
O Candomblé de caboclo está mais perto dos Bantos do que dos Iorubas.O fiel seguidor do Candomblé de Angola não conseguiu decorar e aprender as inúmeras rezas existentes enquanto que o caboclo o fez com facilidade. Muitos iniciados não se lembram às vezes das rezas dos ritos de iniciação, da evocação das entidades bantos, mas se forem incorporados pelo seu caboclo, conseguem rezar corretamente ainda que anteriormente não lembrassem ou mesmo não soubessem as rezas. O Candomblé começa como um processo festivo. Numa cerimônia festiva e religiosa de Candomblé, canta-se para seguir as entidades. A primeira: Nkosi e Mukumbi que está ligada à agricultura, à terra, e seria o correspondente do ioruba Ogum que na Bahia, onde se fala uma linguagem própria, se chama Hoji, e é simbolizado por um leão. Na seqüência vem Katendê que é o deus senhor ligado às folhas, Katende (Congo), Mpanzu (Angola). Ou então Katende - Kikongo e Mpanzu - Kambundu. Não se invoca a Katende em kimbundu. Usando esta língua, a entidade nunca se manifestará, deve-se falar com ela em kikongo. Mpanzu ao contrário, se manifesta no dialeto kimbundu. Na seqüência vem Mukongo, o caçador, o deus da caça. Ele é o patriarca de uma família e foi elevado por Nzambi Mpungu, que significa Deus todo poderoso, à condição de semideus. Na sua família tem Mutakalambo, Kabila (pastor), que são os auxiliares de Mutakalambo. Em seguida vem Nzazi, o deus dos raios, a palavra Nzazi quer dizer raios, e corresponde a Xangô. Depois vem Luango que é uma senhora, e é auxiliar de Zazi, em seguida Nsumbu, que é o deus que está ligado à terra e também tem uma família e vários auxiliares, sendo Kikongo, que é o deus da varíola e da bexiga, um dos principais. Quando se canta em reverência a essas entidades, é preciso falar numa seqüência que engloba todos os caminhos da própria entidade. Temos Kavungu que é o mesmo que Nsumbu, e quer dizer ráfia: é o senhor das palmeiras. O culto a esse santo se faz debaixo de uma palmeira. Depois segue-se uma entidade da mesma família, chamada Kanjanja. Todos esses patriarcas sempre têm um auxiliar, que é uma mulher, e representa o elemento feminino. Segue-se Tempo ou Kitembu que é o deus da atmosfera. Há quem afirme que esta é a divindade mais reverenciada pelo povo de tradição de Angola. Na frente de muitas das casas de Candomblé de Angola, existe um mastro alto com uma bandeira branca; na realidade este mastro é um bambu que representa a entidade. Ali segundo uma das lendas (Nkisi), Mutakalambo, um caçador, saiu à caça juntamente com outros caçadores e teve dificuldade para retornar. Enquanto isso, a aldeia passava fome e necessitava daquela caça. Então Nzambi Mpungu mandou que o Nganga (adivinho) que é o responsável por consultar o oráculo sagrado, verificasse o que havia sucedido para Mutakalambo não ter retornado. Após a consulta, este disse que Mutakalambo tinha feito o trabalho que Zambi havia determinado, mas estava perdido na selva. Nzambi Mpungu chamou a caçadora Mutajinji e pediu-lhe que juntamente com outros Nkisi levantasse uma bandeira de forma que as pessoas que estavam perdidas na mata pudessem ver e se direcionar. Eles conseguiram achar o caminho e retornar à "Sanzala Kasembe diá Nzambi" (aldeia sagrada de Deus). Tomando esse caminho para a sanzala, Deus todo poderoso mandou que todos os bantos reverenciassem Tempo e no pé daquele mastro fizessem um ritual homenageando Tempo por ter dado a direção aos caçadores. Com isso todos nós de Angola temos um grande respeito por essa entidade que é o deus da atmosfera. Depois de Tempo, vem Hongolo que quer dizer arco-íris, e é o patrono nas chuvas. Vunji é a patrona da justiça, é uma senhora e para os Iorubas representa Xangô. Vem depois Kisanga que é ligada às águas calmas e ajuda também Vunji nos nascimentos das crianças. Segue-se Matamba que corresponde a Iansã e é ligada às tempestades, seguida por Ndandalunda. Esta entidade é ligada às lavouras; o culto só pode se realizar numa lavoura e uma pessoa para se iniciar só podem fazê-lo também diante de uma lavoura. Assemelha-se a Oxum dos Iiorubas apesar de Oxum ter uma função ligada à fecundidade. Temos depois Nzumba ou Zumbarada ou ainda Ngangazumba. Este último é uma entidade angolana ligada à lama; seu culto e iniciação só podem ser feitos num lamaçal. Em seguida vem Sambakalunga que é das profundezas do oceano e Kaiala que se assemelha a Iemanjá, porém em Angola, só mulheres donzelas podem ser iniciadas e não podem casar-se. O nome de Iemanjá segundo um estudioso vem do termo Iamangá do banto. Na seqüência vem Lema que é ligada à fecundidade e é patrona do casamento. É uma entidade feminina e pode ser comparada a Oxalá. Estas são as entidades mais conhecidas no Candomblé de Angola, no Brasil. 
Durante os procedimentos, os atabaques têm um poder muito significativo e servem para anunciar ou denunciar a presença da entidade no terreiro de candomblé, ou a presença de uma pessoa importante, como um Tata (Pai-de-santo). Quando o sacerdote chega ao terreiro, os tocadores iniciam os toques. No candomblé de Angola existem três toques: no entoar de cantigas para as entidades, que anunciam a presença do pai de Santo. O primeiro é o do Congo, o segundo e mais apressado é o Barravento e o terceiro, é o Munjola. Temos um toque também mais cadenciado e pouco conhecido nas casas de candomblé do Brasil, que se chama Bongo. 

A dança da entidade é de frente para o atabaque, mesmo que a platéia fique às suas costas. O instrumento tem bastante importância. Existem outras formas de dança, como a dança de roda das baianas. É pertinente que dancem as mulheres. O homem geralmente é privado de dançar em roda de candomblé. Os homens tocam os atabaques, respondem às cantigas, tocam instrumentos e auxiliam no momento do evento de uma forma geral. Existe um costume, não é tradição, notadamente no Rio e em São Paulo de homens dançarem em roda de candomblé e usarem turbantes do tipo muçulmano na cabeça. Na realidade os homens não usam isso e por força da colonização, os sacerdotes do candomblé de Angola, especialmente os mais tradicionalistas, se apresentam nos barracões usando terno e gravata. No Brasil não existem trajes apropriados para essas cerimônias, e até as entidades quando vêm, são paramentadas com roupas tipicamente européias. Criaram-se algumas coisas, mas fogem à realidade porque as entidades na África dançam semi-nuas. Geralmente em Angola, as roupas mais apropriadas são as folhas. 

 


Glossário: 
Kizumba – Festa 
Mazomba – Confusão 
Mona – Filho/Filha 
Kamona – Criança 
Kafioto – Criancinha 
Kianda – Lagoa 
Kamutue – Cabeça 
Ioiô – Antigo 
Henda – Misericórdia


Referências Bibliográficas: As Sete Portas da Bahia – Caribé

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