África - O Coração do mundo
J.
Lawrence V. Adler
Prefácio
Na
tentativa de olhar vários aspectos do complicado enigma que a África
representa para o mundo, o escritor tentou usar alguns dos métodos da
Antroposofia, a ciência que busca encontrar a arquitetura viva, quer dizer, a
interação das forças espirituais subjacentes se manifestando no fenomenalismo
mundial. Se for possível descobrir algumas das atuações espirituais
produzindo os acontecimentos exteriores do atribulado continente, estas poderão
apontar a direção para se encontrar as soluções.
O objetivo deste artigo é lançar uma luz sobre as tarefas com que irão
se defrontar os povos do nosso continente, assim
como o resto do mundo, se o desafio sério que a nossa querida África
apresenta ao desenvolvimento da espécie humana puder ser achado
construtivamente.
Os
homens são seres espirituais e cada ser precisa trazer sua contribuição única
para a realização do mais alto desenvolvimento da dignidade humana inata, não
interessando sua nacionalidade, raça cor ou religião. Graças a Deus os homens
não são todos iguais! Como seria aborrecida a sinfonia da humanidade, se todos
os membros da orquestra cantassem com a mesma voz, tocassem o mesmo tipo de
instrumento e na mesma tecla! Nós precisamos descobrir as nossas vozes
individuais, os nossos diferentes instrumentos, os nossos diferentes TALENTOS
para assim atuar na sinfonia do HOMEM com muita qualidade. Este artigo é endereçado
a todos os que se sentem preocupados com a ligação da África com o resto do
mundo – especialmente o mundo ocidental – e as suas implicações com relação
à harmonia mundial. Por vezes será necessário definir certos termos
utilizados na Antroposofia.
O
Coração como um Mediador entre Polaridades da Vida e as Forças da Morte
Tem
sido dito com freqüência que o homem como um microcosmo é uma imagem do
mundo. Então, se uma pessoa tem dificuldade para entender a arquitetura do
mundo, deve direcionar o seu primeiro olhar para o que está mais à mão: o
corpo humano. Conhecemos sua estrutura e órgãos em linhas gerais. Examinando
as suas inter-relações e funções, podemos ter a percepção das analogias
que nos permitem entender um pouco dos processos espirituais do mundo.
Comecemos
olhando o coração humano. Como pode alguém de alguma forma caracterizar sua
função e sua posição com relação à geografia do corpo? É preciso ter em
mente que não há correspondências absolutas na natureza, mas somente
"tendências em relação à forma". Como regra, uma curva representa
o que seria no abstrato uma linha reta. O mundo é cheio de polaridades e assim
também é o corpo. Se não houver mediação entre polaridades, elas tanto
poderão colidir – que significa chegar a um contato cataclísmico – como,
se efetivamente separadas por um mediano inativo ou neutro, permanecer inertes e
não acontecer nada. Se um mediano de conexão é intercalado entre os extremos,
eles se tornam complementos num processo onde a tensão entre eles está
resolvida numa "conversação", uma troca entre eles. É assim no
corpo humano.
A
cabeça com os sentidos e todo o sistema nervoso pode ser olhado como o pólo
humano de percepção. Para funcionar corretamente precisa de paz e silêncio.
Os membros, com os músculos e com todo o sistema metabólico constituem o pólo
oposto, o movimento físico, a ação. Há que se equilibrar esta "conversação"
de forma que seja transformada em interação criativa – que é a função do
coração. No entanto, para representar este equilíbrio, o coração tem que
compreender as necessidades, reações, etc. da periferia, pois o coração é
um órgão dos sentidos.
Na
Meditação da Pedra Fundamental Rudolf Steiner dedica a segunda das quatro
partes ao trabalho de Cristo. Ela contém a exortação: "Ube
Geist-Besinnen" (pratique a atenção ao espírito ou percepção do espírito).
Em outras palavras: pratique dotar sua alma com o atributo da "percepção
e trabalho do espírito", em qualquer lugar. Esta é a função do coração
na esfera das relações humanas, quer dizer, no campo social. Profissões
relacionadas com a medicina, precisam aprender a reconhecer como o espírito
subjacente se manifesta em pólos opostos, de formas diferentes. Olhando este
aspecto fundamental em qualquer corpo vivo, percebemos que o princípio está
suspenso entre duas forças opostas. Uma delas compreende o domínio da formação
da célula - as células "deixadas a cargo do seu próprio plano" como
o micélio (parte fibrosa do cogumelo), fermentos ou algas, reproduzem-se por
divisão, formando virtualmente cadeias infindáveis. A direção do crescimento
é centrífuga e os aglomerados ou protuberâncias de cadeias expandem-se para
fora. Como as células formam os blocos de construção de todos os organismos,
temos razões para nomear isto como o fim da polaridade da vida: As Forças
Vitais Expansivas. A contraparte
destas forças vitais é uma antítese - o grupo de forças estruturais e
modeladoras que inibem sem controle o crescimento das células. Sobrepõe-se ao
projeto de arquitetura do corpo, compelindo os diferentes grupos de células a
se mover para diante partindo dos seus próprios padrões básicos; separando e
especializando os mesmos para formar os diferentes órgãos do corpo. A ação
deste grupo de forças pode ser comparado à poda. Elas trabalham de fora para
dentro, e de forma centrípeta. Tal força mantém as células retraídas,
encolhe-as, trabalha contra elas e as reforma. Isto é parte do processo que é
a antítese da vida, a força da morte. Assim podemos chamar esta polaridade
oposta de Forças Plasmadoras da Morte. Todas as criaturas vivas existem
através da graça de uma interação harmoniosa entre estas duas polaridades. A
palavra "Graça" é usada com muita consciência porque nenhuma
inteligência humana pode aspirar a abarcar tal infinidade de
inter-relacionamentos complexos. Nada mais é do que uma expressão tangível da
benção daquele Ser que é o Senhor das Forças da Harmonia e das divinas forças
do coração – o Cristo. Na mencionada "Meditação da Pedra
Fundamental" aparece a frase "Pois impera a vontade de Cristo na
circunferência, agraciando almas".
Torna-se
muito relevante quando examinamos como o coração em embrião é formado. O
primeiro sinal de vida do embrião é o começo de uma circulação periférica
do fluido embrionário. Em outras palavras, todo o embrião é a cena de um
processo do coração que tudo permeia, que coloca as polaridades das forças de
vida expansivas e as forças plasmadoras da morte, numa interação criativa.
O
fluido embrionário começa a especializar-se com parte dele transformando-se em
corpúsculos sanguíneos. O efeito estruturante desta circulação imprime
"padrões de circulação" ao fluido. Nos redemoinhos, estes corpúsculos
se agregam, formando os primeiros vasos sanguíneos, e fora isto, as formas
primitivas do coração. A circulação agora sofre uma transformação
completa. Passando através do coração, vai deixando de ser perifericamente
dirigida para se transformar num sistema centrado neste órgão. Embora os
detalhes sejam tocados superficialmente, emerge um ponto importante: o coração
é formado por meio de, ou seja, resulta da circulação, não a inicia. No
curso deste artigo tentaremos mostrar que esta analogia, quando aplicada ao
mundo, tem um significado muito mais amplo.
Na
mesma parte orientada em Cristo, da meditação citada acima, aparecem também
as linhas: "Deixai inflamar pelo leste, aquilo que se forma por meio do
oeste". O coração também tem um lado
Leste e um lado Oeste, que obedecem às qualidades mencionadas na poesia.
O direito, sua metade "Leste" contém o sangue arterial quente, ígneo,
vermelho, cheio de soluções ativamente construtivas, nutrientes (rico em oxigênio);
enquanto a metade esquerda "Oeste" contém o sangue venoso, mais frio,
azulado e mais denso, carregado de partículas que são o produto dos processos
de endurecimento do corpo.
O
coração tem quatro câmaras divididas por duas paredes, formando uma cruz. O
eixo vertical desta cruz tem aproximadamente a mesma inclinação que o eixo da
terra. A África tem uma "saliência" no lado ocidental, - o pericárdio
também tem uma saliência no seu lado oeste.
Vamos
olhar agora toda a terra, tendo em mente que não existe o absoluto na
geografia. Deve-se olhar para tendências, "gestos" tal como são.
Outros
continentes também têm a forma de coração, mas são alongados como a América
do Sul, truncados (Austrália), sendo a África, o mais parecido com o coração,
se forem incluídas Madagascar e a Península Arábica que forma parte do lóbulo
ocidental da África e que geologicamente pertencem a ela.
Grosseiramente
simétrica, situada acima e abaixo do equador, quase no meio do caminho entre a
América do Sul e a Austrália, a África ocupa a posição central no mundo e
como o coração humano, tem em seus flancos dois pulmões ligeiramente iguais:
O Oceano Atlântico e o Oceano Índico. As correntes do oceano, circulatórias,
lavam as bordas dos continentes. São também mornas no Oriente e frias no
Ocidente. Estas correntes ocidentais favorecem precipícios exuberantes,
enriquecendo a vida marinha.
Podemos
continuar a descrever a posição do coração se formos mais além, buscando
mais analogias entre o corpo humano e a terra.
O
corpo humano e a Anatomia da Terra
Tomemos
a cabeça, por exemplo. Como explicamos acima, a cabeça (juntamente com a
organização neuro-sensorial) pode ser relacionada ao pólo de percepção. É
redonda: o cérebro mole, mais duro do que o fluido cérebro-espinal, mas não
com a dureza dos ossos, é como "água congelada". A concha dura e
ossuda fica fechada no topo, sendo o seu terminal "setentrional".
Abaixo,
na sua parte mais "meridional" existe a mandíbula. Ali ela se desloca
até uma certa posição. Pode mover-se um pouco como um membro. A língua tem
características semelhantes: no "Norte" é quase imóvel, crescida,
fixa à cabeça; no "Sul" é pontuda e pode mover-se. O caráter de
membro que a mandíbula e a língua têm, torna-se ainda mais evidente pela sua
capacidade para o trabalho – i.e. mastigar e falar.
Os
opostos polares da cabeça são os membros. São alongados, têm ossos duros
dentro e carne macia, i.e. músculos rodeando a parte exterior dos ossos. O úmero
e o fêmur têm terminais "setentrionais" largos, esféricos que são
os mais próximos da cabeça e podem girar. Rumo ao seu terminal sul, eles se
tornam mais finos e têm terminações bifurcadas que apenas podem formar uma
junta articulada. Esta propensão a ser irregularmente esférica (como uma cabeça),
conforme acima, e mover-se obliquamente entre pontos distantes deles, torna-se
progressivamente mais pronunciado à medida que se movem para mais longe da cabeça;
cada membro termina dividido em cinco dedos pontudos. Os membros com os seus músculos,
em parceria com todo o sistema metabólico, constituem, como afirmamos, o pólo
oposto ao da cabeça, o do movimento físico, da ação.
Aqui
também, a região do peito, o meio, que abriga o coração, desempenha um papel
mediador. Ao "norte" isto é, no alto, a caixa formada pelas costelas
é configurada num esqueleto, duro, sólido, côncavo, protegendo os órgãos
macios internos. Prosseguindo na direção descendente, as costelas se separam;
o osso duro é intercalado com tecido mais macio, até que conseqüentemente as
costelas, agora atuando como membros, movem-se com cada respiração, recuando
para que o abdome possa tomar parte no processo.
Olhemos
agora a geografia da terra. O Pólo Norte consiste numa imensa massa de gelo
flutuante – água congelada, como a massa gelatinosa do cérebro, flutuando no
fluido cérebro espinal. O Ártico é coroado por ilhas e as margens rochosas
dos continentes ao norte, formam uma espécie de "esqueleto". O
interior é mole e o exterior é duro. O Pólo Sul tem um cerne de terra rodeada
por oceanos – duro dentro e mole na periferia. Todos os continentes, a maioria
das penínsulas terrestres, e muitas das suas maiores ilhas têm um perfil
redondo ao norte e pontudo ao sul. O norte exibe características semelhantes à
cabeça e o sul aos membros. A Europa detém a maioria das penínsulas –
massas de território intercaladas por grandes mares. No sul elas continuam
através da Ásia com grandes mares interiores: o Negro, o Cáspio, o Aral etc.
No ocidente (interrompido pela cordilheira do Atlântico Norte) cruzam o Oceano
Atlântico e ressurgem como os grandes lagos americanos e a bacia de Hudson. A
Europa proporciona uma espécie de caixa formada pelas costelas, através da
qual a mais importante corrente de ventos Leste-Oeste respira, ligando a terra e
o mar. Mas e a argumentação de que a África é o coração do mundo, implícita
no título deste artigo? – Precisamos desenvolver um pouco mais este princípio
fundamental para clarear alguns dos aspectos intrínsecos de um relacionamento
recíproco.
A
relação recíproca entre o Mundo Físico e o Mundo Espiritual
Olhemos
a relação de um arquiteto para com a sua construção. Enquanto ele está
ocupado planejando, a sua mente está cheia da construção, mas ainda não
existe uma estrutura física. Uma vez que a casa está construída e completa,
em outras palavras, fisicamente implantada, a sua atividade espiritual interior,
pára. É como se o conteúdo da sua mente se esvaziasse na construção de
tijolos e cimento, podendo mover-se em direção a novas áreas. Em outras
palavras: O potencial espiritual e a sua realização física ou encarnação,
estão numa relação recíproca que se opõe e se exclui mutuamente.
Pode-se
esquematizar isto da seguinte maneira:
| Atividade
Espiritual (projeto) |
Sem
casa física |
| Casa
física (está presente) |
Não
existe mais atividade espiritual |
|
| Ou |
|
| Arquétipo
Espiritual |
"Espaço
Vazio" na terra |
| Encarnação
Física |
"Espaço
Vazio" no mundo espiritual |
i.e.
a relação recíproca é inversamente correspondente.
A
Relação Recíproca no Continente Africano
A
África é rodeada por cadeias de montanhas costeiras quase ininterruptas
incluindo um planalto. Assim em corte seccional, lembra uma taça. O chão deste
planalto central é entalhado por dois sulcos principais: O vale da fenda, a
bacia do Nilo fluindo desde a costa norte até entrar em Moçambique (As suas
corredeiras continuando até abaixo do Cabo, são cortadas abruptamente pelas
Table Mountains). Este corte
vertical é atravessado em ângulo reto pelo maior vale leste-oeste da África,
a bacia do Congo. Os dois formam uma cruz poderosa. Assim, a "Taça da África"
incorpora um "Espaço Vazio" em forma de coração, dividido em
quartos pela cruz encravada no solo. Mas
dissemos que um espaço vazio físico
corresponde ao potencial espiritual ou arquétipo; assim,
podemos dizer que a África contém ou envolve um espaço vazio, "um coração
espiritual".
Rudolf
Steiner chamou a África de Continente de Mercúrio.
O que será que significa? Quando os anciãos falavam de mercúrio, se
referiam às forças da vida; por exemplo, os Assistentes de Mercúrio
simbolizam a arte da cura. Para os alquimistas mercúrio era o líquido
quintessencial, e o líquido é o veículo físico das forças da vida. A África
praticamente não tem mercúrio e também tem muito pouca água. Será esta
outra manifestação de uma relação recíproca? Terá ela talvez forças
vitais espirituais, forças espirituais de cura que ainda não desceram para a
terra, i.e. que ainda não encarnaram?
Os
jardineiros dizem que quase tudo pode crescer neste país se existir água
suficiente. Em outras palavras, existe um grande potencial de vida que
geralmente não se realiza na forma de plantas vivas crescendo sobre a terra
porque existe muito pouca água.
A
África tem o solo geologicamente mais antigo da terra. Está acima do nível do
mar há muito mais tempo do que qualquer outro continente. A última inundação
de renovação aconteceu muito antes de inundações em outros continentes,
ficando fisicamente endurecida e atrofiada. A maioria dos rios africanos fica
seca na maior parte do ano. Àparte a infiltração subterrânea, eles não
fluem, os leitos reduzidos e estéreis racham quando o sol impiedoso resseca
tudo a não ser as raízes mais profundas de árvores e plantas; os seus bancos
como entranhas expostas são dilacerados e corroídos pelo vento e a erosão.
Estes rios deveriam ser as artérias fluentes do sangue vital da terra,
alimentando as suas criaturas, levando embora os seus sais viciados. Os rios da
África envelheceram, funcionando de maneira errante. Eles se transformaram em
verdadeiras artérias secas. A água deveria tecer os veios vitais das rochas e
plantas, o sangue dos animais e do homem, e assim ocupar literalmente o reino médio
entre o céu e a terra. Se, numa enchente ela cava sulcos profundos abaixo da
superfície da terra, torna-se destrutiva e traz a morte atrás dela; se fica tão
alto no céu que não se precipita como chuva, traz a morte da mesma forma. Para
haver vida, i.e. para ser o portador das forças da vida espiritual na terra, a
água deve estar fisicamente presente entre o céu e a terra. Se estiver
ausente, o potencial espiritual das forças vitais pode ser muito grande, mas
elas não desabrocham na existência física, não se transformando em vida aqui
na terra. Tentamos mostrar que todas as funções da água mediadoras, fluentes,
rítmicas (neste caso, os rios) pertencem ao reino das forças do coração. Será
que quando chama a África de continente de Mercúrio, Rudolf Steiner pretende
indicar que a África é a portadora espiritual das forças do coração?
Que a África contém o espiritual, o coração (potencial) da terra? Em
terminologia antroposófica podemos chamá-la de coração etérico da terra
que, no entanto tem problemas em tornar-se efetiva na terra por causa da secura
da sua correlativa física: a água.
As
Forças Etéricas ou Formativas e as Forças Astrais
Antes
de tentarmos examinar alguns aspectos da atividade deste coração etérico ou
espiritual, devemos esclarecer alguns conceitos mais.
No
começo deste artigo falamos sobre a expansão das forças vitais e das forças
plasmadoras da morte e que todos os processos vitais são interações entre
estes dois parâmetros. Assim, agrupando a polaridade acima em um conceito,
podemos chamá-las de forças vitais formativas, ou em terminologia antroposófica:
forças etéricas. Exatamente como a estrutura na engenharia, pode-se falar de
um corpo de forças e contra-forças peculiares nessa estrutura, de forma
que se pode chamar de combinação particular de forças vitais de um organismo,
o seu corpo de forças vitais formativas, ou para resumir, corpo etérico.
Foram os sentimentos que originaram, no reino das estrelas fixas, o Zodíaco,
que significa "círculo de animais". Cada espécie de animal e cada
ser humano tem uma constelação de sentimentos, diferente e distinta que lhe
confere a marca característica. A sabedoria ancestral considerava que os
animais representavam o completo reino dos sentimentos. A Antroposofia pode lançar
uma luz na realidade desta conexão entre vida dos sentimentos e das estrelas.
Assim como a palavra estrela deriva do grego "Áster", a Antroposofia
emprega os termos Forças Astrais e Astralidade para designar as
forças do sentimento. Conforme acima, pode-se chamar uma constelação do
animal ou da pessoa, de Corpo Astral. O Homem também tem sentimentos,
mas é a presença do seu Eu que o distingue do animal, permitindo-lhe
dizer: "Não" ao seu instinto e assim elevar-se acima do seu reino.
Reencarnação,
Carma e Atlântida
Três
termos ainda precisam ser definidos e esclarecidos antes de termos um fundamento
a partir do qual possamos seguir adiante nas nossas explorações:
Reencarnação:
Significa simplesmente renascimento. A Antroposofia define este termo como: o
renascimento do homem num corpo humano. Vamos tentar descrever isto numa imagem
simplificada: exatamente como num organismo comercial, os vários departamentos
precisam emitir uma folha de balanço anualmente e iniciar o novo ano com o
resultado do trabalho do ano anterior perante eles (o balanço dos créditos e débitos),
então depois da morte, o homem passa por uma auditoria, que é o processamento
dos feitos de sua vida e emite um "balanço dos seus créditos e débitos".
Isto implica lembrar os fatos das experiências do seu dia a dia, a fim de
chegar ao resultado líquido, os "Lucros e Perdas". Com eles recomeçará
uma nova vida, construirá um novo "negócio de vida".
Sem
a reencarnação, o homem estaria irremediavelmente bloqueado no seu presente
leque de possibilidades e não poderia nunca superá-lo, quer dizer, a
possibilidade de reencarnar é o ponto de partida para o infinito padrão de
desenvolvimento humano em direção ao potencial espiritual.
A
Lei do Carma: Poderia ser descrita da
seguinte forma: Uma pessoa tem que encontrar as conseqüências de suas ações,
se deparando numa vida posterior, com situações cujo sentido, estando em ações
anteriores dela e de seus companheiros, pode despertar e ser um estímulo e um
trampolim para o seu desenvolvimento futuro.
Atlântida:
De Platão a Steiner, a Credo Vusamazulu Mutwa
e antes, inúmeros autores escreveram sobre o antigo continente da Atlântida
que submergiu pelas inundações da Idade do Gelo. Platão localiza este
continente na vizinhança dos Açores. É interessante perceber que vários
nomes de lugares à direita e ao norte da bacia atlântica contêm as sílabas
"atl", "elt", "tla", etc. que parecem ter suas raízes
na "Atlântida": Popocatepetl,
Tlaxíaco no México,
Montanhas Atlas na África, o
Kotluangi em Iceland, e o Qutdligssat
em Greenland etc., para nomear somente alguns.
De
acordo com Steiner, nos tempos atlânticos, toda a substância terrestre era
mais fluida do que hoje, assim como os corpos humanos. Por causa disto, as forças
formativas vitais podiam trabalhar muito mais rapidamente em toda a criação.
Usando o mesmo indício, o homem tinha acesso mais direto às forças
vitais formativas e podia manipulá-las, servindo-se delas de maneira similar
como hoje manipulamos as forças sub-físicas como eletricidade, magnetismo, forças
nucleares, forças genéticas etc.
Devido
a este estado mais fluido da terra e da natureza, o homem não encarnava tão
profundamente como hoje. Estava mais "em contato" com o mundo das
estrelas e este penetrava as suas forças vitais formativas. Em outras palavras,
as forças astrais e etéricas estavam muito mais
intimamente entrelaçadas do que hoje. Este fato deu-lhe imenso poder
porque todos os seus sentimentos incitaram poderosas reações etéricas. À
medida que se aproximava o fim da época atlântica, a corrupção e o mau uso
destes poderes foram-se instalando. Por vezes o abuso ficou tão descontrolado
que o equilíbrio cósmico entre as forças
etéricas e astrais da natureza entraram em colapso e dilúvios destruíram o
continente. A história do dilúvio é a descrição destes eventos. Histórias
similares podem ser encontradas em quase todas as mitologias.
Nenhuma mitologia poderia manter uma história assim por tanto tempo se
ela fosse mera "fabricação". A sua presença universal sugere o
fundamento da verdade totalmente àparte da evidência geológica. Porque fomos
buscar tudo isto? Falamos da lei do carma, que o homem deve enfrentar as conseqüências
das suas ações. A humanidade tem
uma dívida cármica a pagar pelo abuso do poder das forças etéricas na Atlântida.
Quando a inundação ocorreu, as pessoas fugiram do seu "Epicentro" em
várias direções. Algumas das correntes mais sulinas se deslocaram para a África,
provavelmente via Bacia do Congo (Ver os mapas de Credo Mutwa na capa deste
livro). Rudolf Steiner expôs que a raça negra transporta os impulsos da Atlântida
para os tempos modernos. Existe alguma evidência que apóia esta argumentação.
Consideremos as forças de movimento, fortes e instintivas da África (e agora
se infiltrando no ocidente). Impulsos são a interpenetração das forças
subconscientes etéricas e astrais, sendo a correlação atual das condições
da Atlântida.
O
modelo involuntário de imprimir ritmo a todas as expressões artísticas (sejam
elas dança, canto, escultura, decoração, construção ou quaisquer outras) em
motivos repetitivos infindáveis, é um sinal de que as forças etéricas ainda
atuam instintivamente e não entraram no reino do pensamento consciente. Esta é,
por um lado, a razão pela qual eles são tão infalivelmente verdadeiros, mas
por outro, não existe mudança, nem desabrochar, nem desenvolvimento, não há
a metamorfose do motivo até chegar ao clímax como, por exemplo, na música
ocidental, na arte nórdica, etc. (Embora compreendamos que a individualidade
nunca se encaixa em normas, existem, contudo, os traços comuns a todos). Ainda
que seja tentador entrar em maiores detalhes, transcenderia o objetivo deste
artigo. Podemos deixar isto para uma ocasião posterior.
Dissemos
que a raça negra trouxe consigo os impulsos da Atlântida, perpetuando-os na África
e transportando-os diretamente para os tempos modernos. Ela carregou o carma da
Atlântida no lugar do resto do mundo, por um longo período. O tempo de
carregar este peso está quase acabando. O despertar da África está mostrando
isto, e ela não pode mais ser ignorada nos eventos mundiais. O que aconteceu
realmente?
O
Carma da Atlântida foi implantado na África
Quando
a era da Atlântida chegou ao fim, o povo da Europa embarcou num período de
migrações mundiais. Foi-lhes dada a chance de "começar do zero".
Por um tempo limitado (milhares de anos são um curto período no processo
evolutivo) ficando desobrigados da necessidade de enfrentar as conseqüências
da dívida cármica que haviam contraído por terem abusado das forças vitais
na velha Atlântida. Atravessaram um período de migrações mundiais para
iniciar uma nova civilização com impulsos totalmente novos. Neste ínterim da
evolução mundial, eles não tiveram que pagar a sua dívida cármica. Ainda não!
Este período de graça, com todo o desenvolvimento mundial acelerado
desmedidamente é agora empurrado para o seu final.
A
raça negra não participou do desenvolvimento dos seus irmãos brancos do
norte. Tratava-se de um período de
"segurar as pontas" para a humanidade até que estivesse pronta para
assumir mais uma vez os desafios que lhe cabiam e enfrentar a sua dívida cármica
com os poderes da consciência recentemente ganhos.
Se
então a humanidade falhasse em vencer o desafio
do seu carma prorrogado pelo seu próprio discernimento e vontade livre, teria
que pagar um preço infinitamente superior, porque as leis do carma são inexoráveis
e devem ser pagas quando o tempo certo chegar. O carma da Atlântida é o carma
mundial, e assim diz respeito a toda a espécie humana. Os problemas com a África
têm um significado e são um desafio para todo o mundo.
Este
artigo é uma tentativa preliminar de iluminar alguns fenômenos que parecem
apoiar esta tese. No processo tentaremos observar para onde apontam estes fenômenos,
seguindo os seus movimentos. Melhor dizendo, qual o curso de ação que eles
tentam nos sugerir para que desta forma os impulsos do mundo espiritual (dos
quais os fatos físicos são simplesmente sintomas) possam começar a trabalhar
nos corações humanos e trazer bênçãos à humanidade?
Dissemos
que na época da Atlântida as substâncias e os corpos eram mais fluidos e
dessa forma constituíam um meio onde as forças etéricas podiam trabalhar com
grande proximidade e poder e que os seres humanos abusaram destas propriedades.
Hoje o solo da África é seco e duro, há muito pouca água para canalizar as
forças etéricas do crescimento. Fora outras implicações, no nível agrícola,
isto parece apresentar o seguinte desafio cármico (porque como foi colocado
antes, a África ainda carrega a dívida cármica do mundo):
Tornando-se
consciente desta falta de água, a fome interna e externa do homem levou-o a
aspirar aquele discernimento espiritual pelo qual ele pode, através do trabalho
humano altruísta, criar novas condições para o fluir das forças etéricas e
trazer bênçãos para o mundo, e a África em particular.
Que
tal desafio não diga respeito somente à África, parece ser percebido no
exterior pelos fenômenos tais como, a participação mundial na "Operação
Fome". É trágico que este
nobre impulso não tenha sido acompanhado com discernimento dos assuntos que
precisavam ser relacionados, sendo assim
abortados.
Uma
outra indicação da preocupação do mundo foi o trabalho de Richard St. Barbe
Baker e o seu "Men of the Trees" (Os Homens das Árvores). Eles começaram
o reflorestamento do Kenya e do Saara. As seguintes citações deste livro My
Life, My Trees (Minha vida, Minhas Árvores) dão uma idéia da
espiritualidade deste pensamento. Não admira que tenha feito tanto sucesso!
Vamos
olhar na página 146. "O programa de recuperação do Saara proporciona um
desafio tão impressionante que poderia unir todos os países que lutaram tanto
tempo pela sua libertação do colonialismo". Na página 155 ele cita o título
de uma palestra que deu em Brisbane (Recuperação do Saara e como ele pode
aliviar as tensões mundiais). Na página 163 ele escreve: "freqüentemente
as atitudes isolacionistas e raciais são características das tendências
separatistas contra as quais, nós dos Homens das Árvores, devemos
resistir". Isto parece indicar uma direção para tratar os problemas da África
(e conseqüentemente do mundo) com uma chance de sucesso muito mais provável do
que todas aquelas (agora, graças a Deus não mais operando) medidas
anti-apartheid. Deve ser explicado, contudo, que este apartheid inverso ainda
opera em vários estados da África que se tornaram independentes. Vamos olhar o
apartheid um pouco mais de perto.
Apartheid,
um sintoma de doença mundial
O
caos forjado no equilíbrio da
natureza nos tempos da Atlântida, está impresso como um cisma na estrutura etérica
da África, expressando-se no contraste básico: calor escaldante e pouca água.
A Água é o elemento da natureza que mais do que qualquer outro, faz a mediação
entre as polaridades e as conduz a uma relação harmoniosa e rítmica.
Neste
sentido desempenha a função do coração no reino da natureza física. A sua
falta significa que a substância mediadora, como o veículo para solucionar o
caos, está faltando. O Apartheid seja ele o oficial da África do Sul, tribal,
nacional, o apartheid inverso (pretos contra brancos), a sua variante americana,
as castas na Índia, os judeus na Europa, etc. etc. não está de forma alguma
superado. Espiritualmente é uma expressão da pobreza das forças do coração,
uma seca aridez espiritual. A Trombose – impedindo que as forças do coração
fluam, entupindo as veias – é uma das doenças que mais matam no mundo. Será
um sintoma do obstáculo ao coração humano, Isto é, às suas forças de amor?
A aridez espiritual das forças do coração é encontrada em todo o mundo. O
apartheid mundial seja ele casta, raça, classe, política, religião,
nacionalismo ou qualquer outro, é a verdadeira herança da Atlântida para o
mundo e precisa ser direcionado. A sua manifestação mais séria parece ser os
conflitos Leste/Oeste, que embora não se
expressando mais como Rússia contra o Ocidente, foi agora substituído pela
China e outros países comunistas, maometismo e muitos outros
"inimigos" – isto é, o apartheid oriente/ocidente ainda está se
fortalecendo. O mais interessante é que, apesar
do apartheid ser encontrado em qualquer lugar (isto é lamentável), a
atenção mundial estava focalizada na sua manifestação na África do Sul.
Olhava para a África do Sul com o sentimento de grande desagrado: o coração
do mundo não estava funcionando adequadamente. Isto faz-nos lembrar dos
nazistas projetando o seu sentimento de ter falhado como "Cristãos"
sobre aqueles exemplos vivos de um povo que também não encontrou o
Cristianismo – o povo Judeu. Tentaram
destruir externamente o que só pode nascer pela mudança da individualidade
interior.
Temos
dúvidas se o Conselho Ecumênico Mundial assim como as igrejas que
individualmente apoiaram conflitos armados contra o então governo sul-africano,
não caiu numa armadilha semelhante, contudo, a sua preocupação humanitária
com o sofrimento dos oprimidos pode ter sido genuína. A revolução não pode
remediar a sua condição básica, apenas esconde a doença nas profundezas, como
na Europa e na maioria dos novos estados africanos – com resultados
desastrosos.
Devemos
voltar novamente ao significado geográfico do sul. Não é irrelevante notar
que de toda a África o seu ponto mais ao sul – África do Sul – é por um
lado mais profundamente penetrada pelas forças de consciência ocidentais
enquanto que por outro lado, disseminou de maneira crassa a sua "doença do
coração". É a semelhança da consciência do pensamento ocidental padrão
que simultaneamente imprimiu no Ocidente um sentimento de afinidade– e
revolta: "A África do Sul representa aquela parte de mim que está
mortalmente doente. Eu desejaria poder cortar esta parte infestada".
O
rico húmus da velha civilização européia parece enterrar e esconder muitas
das suas doenças; de outro modo, a erosão da África, o seu solo duro e
impenetrável, dirige-as para a superfície, nuas e cruas, para que todos vejam.
A África do Sul era apenas o patinho feio, o insípido sintoma da doença do
mundo inteiro.
No
início deste artigo salientamos que o coração humano se forma através da
circulação periférica. A doença do corpo pode somente ser curada se a sua
circulação está em ordem. Em todo o caso se o corpo pudesse curar a si mesmo,
em primeiro lugar,ele não adoeceria;assim, a sua circulação teria que ser
curada da periferia para o interior, caso isto pudesse realmente acontecer. Não
se pode esperar uma cura espontânea, por si mesma. Se o mundo quisesse
efetivamente fortalecer as suas forças
do coração, se quisesse efetivamente curar a doença do apartheid como um
sintoma da sua própria patologia global, ele teria que curar alguns dos seus próprios
apartheid internacionais em primeiro lugar.
Mikhail
Gorbatchev foi o primeiro a começar o processo de cura. O resultado foi espontâneo
e imediato. Em poucos anos, o apartheid da África do Sul foi derrubado e
desapareceu.
Muito
antes de este fato ocorrer, o nosso artigo profetizou ser esse o único caminho
para curar o corpo do mundo da doença do apartheid: o Apartheid Mundial periférico
deveria começar a desaparecer, então a diversidade sul-africana desabrochada
faria o resto. Em outras palavras: era uma questão de cura da cabeça e dos
membros; o coração automaticamente curaria a si mesmo. Isto demonstra que se
os sintomas são interpretados corretamente, raramente os fatos do mundo escapam
da análise.
Antes
de continuar precisamos definir mais dois conceitos.
Alma
da Consciência e o Eu Espiritual
Quando se estuda o desenvolvimento da
humanidade, descobre-se que há períodos de aproximadamente dois mil anos
durante os quais uma certa faculdade da alma é adquirida. Quando entra um novo
período, a humanidade começa a desenvolver aos poucos uma atuação
ligeiramente diferente em relação aos novos problemas com os quais a sua era
se confronta.
Por
exemplo, na época grega, o homem teve que chegar a um acordo com o mundo.
Adquiriu uma nova faculdade de compreender o mundo mais intelectualmente. As
sucessivas escolas filosóficas lutaram corpo a corpo com a dificuldade de
pensar de forma mais intelectual até que, com o escolasticismo no século 13, a
nova faculdade floresceu. Com a alvorada do renascimento uma competência mais
ampla começou na história da humanidade. O homem
passou a se esforçar para olhar e compreender como o mundo funcionava e a ter o
domínio deste conhecimento. Logo começariam as grandes descobertas, seguidas
de novas formas de ciência. Como que engatinhando nesta nova forma de
pensar, identifica os fenômenos físicos e sociais chega a conclusões inéditas,
como: não sou eu que julgo ou falo sobre eles (os fenômenos), mas do jeito
que são, falam através de mim. Este é o seu esforço.
Olhando
para os desenhos de Leonardo Duerer os quadros de Rafael ou Rembrandt os
escritos de Shakespeare, o artista está convencido de que as coisas, o caráter
que ele descreve, fala por si mesmo, sem necessidade de intérprete. Muitos fenômenos
sócio-históricos indicam que a humanidade se esforça para dominar esta nova
espécie de consciência. A psicologia moderna cunhou um novo termo que se
aproxima intimamente deste conceito e que se chama empatia. Isto pode
significar aproximadamente "sentir o seu próprio jeito no do outro,
relaxar sua atitude de julgamento e mergulhar na individualidade da pessoa por
meio de um trabalho artístico ou afim, onde a identificação se transforma em
uma forma de experiência perceptiva interior para compreender o objeto como ele
é".
Esta
nova atitude Rudolf Steiner chama de Atitude da Alma da Consciência. O
período de tempo favorável para a aquisição desta nova faculdade ele chama
de época da alma da consciência. Talvez o seu caráter surja mais claramente
com as questões: "o que te aflige meu irmão?" ou "o que você
sente que te foi destinado trazer para o mundo?" que são feitas em um nível
mais profundo.
A
próxima época de desenvolvimento que deve ser preparada agora, apesar de estar
situada num futuro distante, R. Steiner chama de época do Si-mesmo
espiritual. Nesta época o ser mais elevado pode-se unir com ela aqui na
Terra. De um certo ponto de vista pode-se talvez chamar de Atitude do Eu
Espiritual, a cristianização da Atitude da Alma da Consciência na
qual o ser humano intensifica a própria participação no sofrimento e nas
realizações do outro (do "meu irmão"), transformando-os
nos seus próprios sofrimentos, seu júbilo.
Eu
não conheço nenhuma expressão mais tocante da atitude do Si-mesmo espiritual
do que o seguinte verso:
(Poesia
não traduzida)
A
preocupação mundial com o sofrimento humano de fato começa a revelar um
lampejo, uma primeira luz, da atitude do Si-mesmo espiritual, mas até agora ela
tem sido na maioria das vezes puramente intelectual e tem manifestado muito
pouca ligação com a vida real.
Por
que é assim?
O
mundo deve primeiramente redimir completamente o estágio de Alma de Consciência
para aprender a fazer perguntas genuínas em vez de propor todos os tipos de
soluções intelectuais a questões que não foram colocadas; de respostas
prontas a perguntas que ainda
não surgiram ou cujas implicações ainda não foram compreendidas claramente
nem pelo sofredor nem pelo especialista. Para fazer as perguntas corretas que são
a qualidade do coração arquetípico, é necessária a qualidade de silenciar,
deixando os outros falarem das suas preocupações mais profundas. Esta é,
comparando com uma casca de noz, a atitude da alma da consciência. Surge um
outro pensamento problemático, o discernimento verdadeiro do outro, crie de
coeur, suas aspirações do coração genuíno e o que ele diz que gostaria
de ter. Estas coisas podem ser
muito diferentes, com certeza.
Antroposofia
- Ciência Espiritual e Fenomenologia
É
aqui que a Antroposofia, a moderna ciência do espírito, pode ajudar. Steiner
definiu a Antroposofia como "caminho de conhecimento que guiará o
espiritual no ser humano para o espiritual do mundo". A disciplina da
Antroposofia lega o estudo e a prática do potencial espiritual no homem, o
esforço de reconhecer este potencial que pode ser chamado de sua divina imagem
e a tradução disto para sua realização prática na Terra.
Uma
das ferramentas da Antroposofia é a prática da fenomenologia também referida
como "Observação gotheanística", e está calcada no primeiro parágrafo
deste artigo. Fenomenologia no sentido da Antroposofia é a arte de observar,
estudar os fenômenos do mundo físico intensivamente até que os princípios
espirituais subjacentes se revelem.
Somente
quando a humanidade conseguir desenvolver a atitude da Alma da Consciência de
um verdadeiro escutar fenomenológico a partir do coração, terá dado o
primeiro passo para iluminar o enigma da África escura em direção à solução
do carma mundial da África. Só quando os povos da África se sentirem
espiritualmente reconhecidos, serão capazes de aliviar sua carga de sofrimento;
começarão a fluir as forças espasmódicas do coração da África. Somente
quando o mundo conseguir transformar sua atitude intelectual de julgamento a
respeito dos problemas da África e à sua extremidade meridional, em
envolvimento ativo das suas forças da vontade de sacrifício em
qualidades do Si-mesmo espiritual, é que
o carma mundial da África começará a ser resolvido e o coração do mundo a
atuar de maneira nova, e a funcionar aqui na Terra.
O
que significa envolvimento ativo
das forças da vontade de sacrifício?
Os
maniqueus (por volta do século V) disseram: "Vocês devem deixar o Dragão
vos engolir para que vocês possam devorá-lo, cristianizá-lo desde o
interior". A África precisa da influência das mais elevadas realizações
da cultura européia ocidental: conhecimento espiritual de Cristo que é a Ciência
esotérica cristã, isto é, a Antroposofia, para que possa reconhecer os
processos de formação do coração do mundo e interiormente responder a eles.
Isto não significa que a Europa deve enviar palestrantes ou sentir-se obrigada
a ensinar a África. O contrário
é preciso: a sublimação da fenomenologia. Como pode ser feito isto? Plantando
impulsos espirituais no trabalho sobre a terra, aplicando a Antroposofia nos âmbitos
práticos para que o solo seja fertilizado com o trabalho do homem, sendo
literalmente preparado para receber os frutos do esforço espiritual do homem na
Terra. Somente então a Antroposofia encontrará também um solo frutífero
espiritualmente, no qual as sementes espirituais têm chance de germinar, porque
o fundamento da vontade foi preparado e a partir dele as questões espirituais
verdadeiras brotarão no tempo certo. Não devemos tomar isto de forma pedante.
Estes dois, o desafio do trabalho e o desafio de transmitir aprendizado esotérico
não têm que ser atingidos na ordem cronológica. Eles devem se entretecer para
formar o tecido do coração do mundo.
Esotérico
significa: princípios espirituais subjacentes aos fenômenos exotéricos do
mundo físico (exterior, perceptível pelos sentidos). Assim como o coração
humano foi formado pela circulação emanando da periferia, também o coração
do mundo só pode ser libertado do seu encantamento congelado reavivando a
circulação, uma nação preocupando-se com a outra, e, inter alia, com
a África do Sul. Este processo apenas começou. Possa ele continuar a se
desenvolver!
O
compartilhar do interesse no outro é uma coisa muito diferente de outras formas
de compartilhar. Quando se compartilham mercadorias, é fácil partir de uma
posição de força e auto-segurança: eu tenho e eu dou. Este eu
tenho implica em uma certa agressividade, uma ameaça para com o receptador
pela personalidade do "doador rico".
Na
sua forma mais suave, isto expressa como um paternalismo, na sua forma pior,
esta posição de força se transforma em ameaça ou, em nível internacional,
em ameaças armamentistas ou guerra e seus horrores.
Como
na Física, a cada força corresponde uma contra-força, assim a beligerância
alimenta a retaliação e pode nunca ser curada. Quando, ao contrário,
se compartilha uma inquietação não se parte de uma posição forte e
segura. Inquietação não quer dizer saber as respostas, é um cuidado ansioso,
um sofrimento com o outro e implica em um elemento de insegurança, de
fragilidade. A verdadeira preocupação do coração é o intercâmbio de
vulnerabilidades, de fraquezas e a única segurança é a confiança. Ser
conhecedor da fraqueza humana é a preparação para a compreensão das palavras
de Cristo, "Se duas pessoas se reunirem em Meu nome Eu estarei entre elas",
E esta consciência da fraqueza que cria o espaço para que a força do Cristo
possa trabalhar através ações dos homens. "Não a Minha, mas a Tua força;
não a Minha, mas a Tua vontade fluirá no nosso encontro". Talvez esta
seja a essência da preocupação do Cristão.
Desafios
à África do Sul
Como se pode participar da tarefa de construir
o coração do mundo a partir do interior da
África do Sul? Muitas pessoas sofrem hoje neste país, o que podem fazer os
brancos privilegiados? Constatamos que o coração é um órgão dos sentidos,
então seguramente nós, os herdeiros das realizações ocidentais no âmbito
da consciência, temos a tarefa de ajudar a desenvolver a percepção da
Alma da Consciência e do Eu Espiritual, em nós mesmos.
A
força do Cristo é a Sua capacidade de compreensão e aceitação total da
fraqueza e do sofrimento, apenas porque o homem é fraco e sofre. O Seu júbilo
é criado por cada passo do ser humano em direção ao desvendar do seu Eu
Superior – não importa quão humildes estes passos possam parecer. Em outras
palavras Ele tem para com o Homem um total compromisso; não fica separado mas
junto com o homem – esta é uma imagem que pode guiar-nos em direção
ao desenvolvimento do Si-mesmo Espiritual. Da mesma maneira que o mundo é
desafiado a desenvolver a consciência do coração, nós, no coração da
terra, somos desafiados a desenvolver a consciência, abraçando o mundo periférico.
Somos desafiados a entender a atuação dos
impulsos espirituais provenientes do mundo inteiro, para curar o coração.
Olhemos
uma vez mais para a dualidade das forças vitais formativas como parte da
polaridade fundamental da expansão e contração que também abraça outros
opostos: júbilo e dor; inconsciência e consciência, etc.
A
polaridade da Expansão abraça atributos como: júbilo; inconsciência;.
as forças vitais expansivas. Isto é experimentado a cada noite quando, depois
de um dia de trabalho duro, a pessoa relaxadamente se estica na cama e mergulha
em um sono restaurador.
A
outra polaridade, Contração, compreende aspectos como: dor;
endurecimento das forças formativas, etc. Estas são experimentadas por
exemplo, quando nos ferimos. A rápida contração –expansão da respiração;
as lágrimas contidas; a postura entrando em colapso; soluços (sopro) se
seguindo; o entendimento apurado da dor; o endurecimento da casca da ferida
prevenindo o contínuo escorrimento do sangue (expansão); seguido por exaustão
– enfraquecimento das forças vitais – todos já experimentaram isto.
Pensemos nos ditados: “alegria constrói, mas a dor forma uma pessoa”. Vamos
fazer um resumo destes opostos polares:
| EXPANSÃO |
CONTRAÇÃO |
|
|
| Júbilo |
Dor,
sofrimento |
| forças
vitais expansivas |
Vida
em declínio, forças da morte |
| felicidade,
inconsciência |
aumentadas
por consciência dolorosa |
A
África tem vegetação escassa – isto é o resultado das forças de contração
(produzindo dor). Na
natureza as forças formativas são preponderantes. Os seus efeitos
endurecedores limitam as forças vitais expansivas e estas experimentam
dificuldade em desabrochar e expandir, isto é, as forças formativas se
expandem mais rapidamente e inibem as forças vitais expansivas.
A
natureza luxuriante da Europa
mostra a preponderância das forças vitais expansivas, sobre as forças vitais
formativas (como na Primavera, uma
campina viçosa e florida).
A
África tem necessidade de amolecer as suas
forças vitais demasiadamente estruturadas. Suas
reservas de água devem ser revigoradas pela água super abundante da Europa
(i.e. forças vitais).
Espiritualmente
a cultura européia está perdendo a sua vitalidade; as reservas de água
secando, são a expressão de suas forças vitais sendo comprimidas e sufocadas
por excesso de forças formativas mortas, estragadas pela invasão tecnológica
dos ecossistemas, sendo os recursos destes ecossistemas submetidos a pesadas
influências às quais não estavam acostumados.
Ela precisa da vitalidade interior da África,
ainda não contaminada pela poluição, para fazer rejuvenescer as suas forças
vitais esmorecidas, quer dizer, a Europa precisa da vitalidade da África para
rejuvenescer as suas forças vitais envelhecidas. Tanto as forças vitais
expansivas como as forças da morte plasmadoras, embora trabalhando em direções
opostas, precisam se interpenetrar, conseguindo assim
frutificar mutuamente, ou seja, estimular uma à outra para novas
manifestações de vida. As forças formativas criadas tecnologicamente não
podem desempenhar este papel porque ficam demasiado “quimicamente puras”.
Elas foram criadas com uma função de alcance muito curto e não levam a
ecologia integralmente em conta. Roubam as substâncias que advêm de suas
inatas forças vitais expansivas, de forma a se tornarem mais universais. As forças
químicas por meio disso ampliam o seu relacionamento num âmbito mais extenso
do mundo, depredando as forças vitais expansivas que vão encontrando pela
frente. Vão saciando sua fome voraz; sua instabilidade: o seu apetite químico
destrói a harmonia da natureza em desenvolvimento. Um bom exemplo para este
tipo de abuso pode ser encontrado nos fertilizantes artificiais que retiram a
fertilidade do solo. Precisam ser aplicadas quantidades cada vez maiores de
fertilizantes até que daqui a alguns anos a completa ou na melhor das hipóteses,
a parcial desertificação ocorra. A fertilização com esterco natural por
outro lado, melhora o solo.
De
forma similar as forças vitais expansivas podem chegar a uma ruptura suprimindo
as forças da morte formativas adjacentes para restaurar
a sua própria unilateralidade. Elas deixam substâncias ou organismos
desestruturados em seu rastro, como os organismos deformados, nossos geradores
atômicos ou os produtos da nossa engenharia genética, na forma de mutações
graduais de organismos subdesenvolvidos.
Ambas
as unilateralidades são o resultado de uma compreensão da vida extremamente
limitada e direcionada apenas para o lucro. Uma situação harmoniosa só pode
acontecer quando um estado de simbiose orgânica (a interpretação viva dos
dois princípios opostos) ocorre e eles exercitam as suas forças mútuas, um
mantendo o equilíbrio do outro.
Depois
desta digressão, necessária para à compreensão dos modernos fenômenos que
ocorrem através da ênfase equivocada que se dá a um aspecto demasiado
estreito e unilateral das forças que mantém o equilíbrio da vida, retornemos
ao nosso tema: África.
Se
a África precisa das forças da consciência, deve levar dor e sofrimento para
a "negociação", que é o preço a pagar. Se ponderarmos esta afirmação,
a questão surgirá no nosso coração. "Como posso partilhar, ajudar a
carregar este pesado fardo de dor da África? Como posso emergir do meu casulo e
aprender a dizer: Sim, como mudar o seu sofrimento, como podem as minhas ações
aliviar você?".Talvez a pergunta nem sequer tenha sido feita, no entanto
ela é muito real. "Qual é a necessidade do meu irmão para salvar o cerne
espiritual do seu Ser eterno?". Estou, com todas as forças do meu coração,
sinceramente aberto à linguagem sutil do Espírito Santo? Estará ele tentando
me alcançar através de suas palavras e de suas ações? "E em palavras
trovejantes, o mundo irá responder": - "Se você não conseguir
desenvolver esta atitude espiritual, de ouvir realmente com todas as fibras de
seu coração, os seus esforços de trabalhar pelo futuro espiritual da África
serão em vão. Mas se você conseguir, então a dor se transformará em sístole,
e o júbilo em diástole da circulação das forças vitais do amor de um homem
para com o outro, e a libertação da África do seu grilhão tão antigo de ter
que carregar o carma mundial da Atlântida, estará finalmente começando".
Este
parece ser o lugar para citar uma prece de Christian Morgenstern, amigo de
Rudolf Steiner, um poeta que sofreu dores intensas com grande coragem, até a
sua morte prematura, jovem ainda.
(Poesia
não traduzida)
África
do Sul, o Pé da Cruz Etérica do Mundo.
Falamos
da cruz formada por vales, gravada
na África. Uma cruz maior está
gravada em toda a face da terra. A sua viga vertical é o Vale Great Rift, a
maior vala norte-sul cortada na superfície da terra. Dissemos que o seu pé se
apóia na Table Mountain. No norte ela submerge por um período, para só
reaparecer como o Vale Dnieper (Rússia), do qual aos poucos vai diminuindo em
direção ao norte. O seu ponto mais baixo é o Mar Morto que fica
aproximadamente 396 metros abaixo do nível do mar mediterrâneo. É cruzado
pelo maior sulco leste-oeste, a bacia do Mediterrâneo. As suas corredeiras
(cruzadas pela Grande Cordilheira do Atlântico) estendem-se diretamente até
aos Grandes Lagos Americanos do oeste mas também com interrupções, via mares
Cáspio e Negro até o mar de Aral e diretamente para o Lago Baikal no leste. No
seu ponto de cruzamento fica a terra sagrada sobre a qual Cristo caminhou. No
mar Morto, cuja superfície fica abaixo do nível do mar, temos um lugar onde a
superfície da terra chega mais próximo do seu centro. Relembremos o
relacionamento recíproco discutido anteriormente. Neste sentido, a cruz do vale
pode ser compreendida como o local exato (locus) de uma cruz etérica.
A
Cruz Etérica do Mundo
Vamos
agora olhar umas poucas imagens. Não me peçam para "prová-las".
Deixe-as ficar e veja o que o seu coração diz sobre elas. Talvez você
descubra que elas agüentam um teste mais elevado do que aquele que o intelecto
pode proporcionar.
Aos
pés da cruz do mundo fica a montanha Table, como um altar poderoso, geralmente
coberto por uma “toalha” (a nuvem de extratos que os capetoneanos chamam de
"toalha de mesa"). No Oeste, olhando ameaçadoramente para o Leste,
fica a montanha chamada "Cabeça de Leão". No Leste, ameaçando o
Oeste fica outra, chamada o "Pico do Diabo". Talvez estes nomes
sugiram Lúcifer e Arimã? (ver abaixo). De
qualquer maneira o Cabo é o Cabo das Tormentas (em tempos antigos, marinheiros
orientais chamavam-no "Cap Diabolo", O Cabo do Diabo. Estarão estes
dois "diabos" enfurecidos com a "Mesa do Senhor"?
A
parede de recifes caindo abruptamente para o mar além da "Cabeça do Leão"
é chamada de "Os Doze Apóstolos". Estarão eles olhando que tipo de
sacrifícios serão depositados aos pés da "Cruz do Mundo"? A fila
dos "Doze Apóstolos" chega mais perto por causa de uma montanha
chamada "Karbonkelskop" (A Cabeça de Granada).
Granada
tem a cor do sangue puro. No entanto, a formação geológica, de uma parte da série
de montanhas "Table" consiste de pedra arenosa que não produz
granada. Apesar disso, poderá esta pedra um dia, não pelo trabalho da
natureza, mas por realização do homem luzir como um farol,
translúcido como o sangue de Cristo encarnado? Estará o novo nome do
Cabo "o Cabo da Boa Esperança" do mundo, verdadeiramente merecido?
Nomen
est Omen! Não toquem esta imagem com
as mãos sacrílegas do intelecto, simplesmente deixem-na ficar.
Vamos
definir mais dois conceitos necessários ao nosso entendimento.
Os
Dois Grandes Adversários, Lúcifer e Arimã
No
seu caminho de desenvolvimento, o
homem tem que se guiar pelo caminho do meio - entre Scilla e Charybdis(*) -
dos dois seres espirituais, poderosos e opostos.
O
primeiro deles, em terminologia antroposófica, chamado de Lúcifer - a
luz quer conduzir o homem ao espírito, em direção ao auto-desenvolvimento,
por meio da beleza mas de uma forma egoísta, separando-o dos outros seres
humanos, seus irmãos. Mantendo a consciência social do homem embotada, em
estado de sonolência, Lúcifer tenta seduzi-lo e afastá-lo de suas
responsabilidades terrenas, alienando-o da comunidade humana. Pode-se dizer que
Lúcifer tenta manter o homem num estado espiritual semelhante ao estado de feto
(no corpo físico), evitando que ele entre na terra mediante o próprio
trabalho. O
homem não pode desenvolver-se espiritualmente sem os poderes de Lúcifer
mas quando se abandona unilateralmente à sua influência, torna-se arrogante
e é colocado moralmente em perigo.
Lúcifer
está em oposição a outro poder espiritual poderoso que a Antroposofia chama
de Arimã: A Bíblia refere-se a ele
como "A Grande Besta", "Satã" ou "Belzebu". O
Homem precisa dos poderes de Arimã para pensar logicamente; para compreender e
manipular as substâncias físicas da terra. Toda a moderna tecnologia (por
exemplo, o processador de textos usado para escrever este artigo!) é
literalmente impensável sem os seus poderes. Nós precisamos dele para
despertar a nossa consciência terrestre, mas, assim como Lúcifer, Arimã também
não atua altruisticamente. Ele gostaria
de endurecer, de escravizar o espírito humano dentro do
materialismo. Não é anti-social, pelo contrário, ele tenta enredar
o homem a atuar como formiga, como engrenagem de máquinas sociais – na
burocracia, produção em massa, linhas de montagem, etc. Tenta anestesiar o
homem por meio de mídia de massa, para inundar a sua consciência espiritual
com torrentes de informações irrelevantes até que este perca a orientação e
se esqueça de que é um ser espiritual . Precisamos da ajuda de Arimã
para compreender e dominar as forças terrestres, mas é trágico para o espírito
humano se as rédeas forem largadas, permitindo que ele fique no comando; o
homem fica subordinado ao medo. Somente Cristo pode dar ao Homem
a força para seguir pelo caminho do meio. Pregado na cruz, ligado à
terra, irreversivelmente comprometido com ela e morrendo dentro dela, Cristo
eleva-se novamente pela ressurreição, indo para o Pai Celestial – para o
reino do espírito. As suas mãos estão amorosamente estendidas para o homem até
o fim dos tempos – não existe visão mais grandiosa Daquele
que auxilia na travessia do caminho
do meio. Por séculos
a África tem sido escravizada por Lúcifer e Arimã. Arimã endureceu a terra
de tal forma que o homem caiu nos braços de Lúcifer e não desceu para a terra
completamente, na sua consciência plena.
Com poucas exceções como no Egito e na Abissínia (a "Etiópia"
do "Preste João", cujas culturas não são verdadeiramente africanas
na origem), os homens não cultivaram a terra e praticamente não construíram
nenhum grande monumento cultural. Eles não mudaram, não transformaram a terra
e não fizeram dela seu próprio lar. Arimã
endureceu a natureza, os corpos humanos e as forças vitais de forma que
pudesse manter a humanidade sob o controle do medo.
A consciência humana não pôde irromper tornando-se espiritualmente
acordada. Na África, a consciência humana vagueia por uma terra de sonhos,
entre o céu e a terra, privada do conhecimento seguro da sua origem espiritual,
sem segurança quanto aos vários e assustadores perigos
da terra.
O
medo persegue a todos, os sem lar; medo e superstição também perseguem os
errantes. Leiam o poema da Criação no livro Indaba
Meus Filhos de Credo Mutwa (somente impresso na primeira edição,
infelizmente foi omitido em edições recentes). Qualquer um familiarizado com a
história espiritual do mundo, como citado por Steiner no seu A Ciência
Oculta ficará surpreendido como as imagens de Mutwa refletem a história
espiritual da terra. Ao ler este livro, ficamos com uma impressão dominante: o
medo o impregna do começo ao fim, é quase tangível. Está onipresente na
atitude da deusa-lua, inspira a árvore da vida: medo dos espíritos da natureza
demoniacamente aterradores, medo dos capatazes; medo dos chefes; medo de outras
tribos. O medo dividiu o povo da África e coagulou nações em impérios
regulamentados por ele. O medo está em toda a parte, rege a totalidade da África
moderna! Num grau menor, ainda
rege a África do Sul que pouco a pouco vai emergindo da nuvem que a
encobre. Realmente o medo alcança
e influencia todas as relações mundiais; é um dos pilares do apartheid
mundial. Na medida em que permitimos que o medo impeça a troca humana das forças
do coração, o fluxo de forças da alma de
um homem para outro, as forças arimânicas analíticas regulamentarão a nós e
ao mundo inteiro. Confiança – não confiança cega, mas confiança
imbuída da atitude de consciência do Eu, de buscar e reconhecer a atuação do
Cristo no espírito do nosso semelhante, esta é a confiança que pode superar o
domínio de Arimã.
São
Jorge e o Dragão
Já
que falamos do dragão do medo humano, pode ser apropriado fechar com a
contra-imagem de São Jorge – a imagem inspirada por Michael, do homem
vencendo o dragão.
A
lenda conta que São Jorge estava dormindo algures na Arábia, quando Michael
lhe apareceu e ordenou-lhe que fosse salvar uma princesa em perigo.
As terras do rei, seu pai,
tinham sido devastadas por um poderoso dragão marinho que tinha engolido
todo o rebanho e cuja respiração flamejante queimaria toda a terra até que
lhe fosse trazida uma virgem para ele devorar. Muitas virgens já tinham sido vítimas
do dragão, quando por fim, a princesa, filha do rei, foi sorteada. O rei
suplicou para que ela fosse poupada, sua filha única, mas a ralé não aceitou.
Por fim, a própria princesa venceu
as objeções do rei e de sua própria vontade dirigiu-se para o dragão, para
cumprir o sacrifício.
Assim
que a visão sumiu, São Jorge levantou-se, montou o seu cavalo de batalha e
cavalgou para salvar a princesa. Encontrou-a perto do mar, amarrada e abatida,
aguardando o seu destino. Ignorando as súplicas dela para fugir, disse-lhe para
acordá-lo quando o dragão aparecesse. Depois disso dormiu, descansando a cabeça
no colo dela. Finalmente o dragão surgiu das ondas e São Jorge foi acordado
pela princesa, pulou no seu cavalo e lutou por longo tempo ardentemente. Só
conquistou o dragão quando conseguiu perfurar a garganta dele com a sua lança.
Imediatamente após a vitória, ele amarrou a haste da lança
na cintura da princesa (notem, ele não matou o dragão!). Depois disso o
dragão, totalmente amansado, seguiu-a como um obediente cachorrinho.
São
Jorge levou-a então de volta para
o pai, nas montanhas e, abrindo mão de qualquer prêmio, seguiu o seu caminho.
O
que nos conta esta lenda? O que tem o imaginário mitológico a dizer sobre
isto? Ele pede à princesa para acordá-lo,
o que significa que ele usa a sua clara consciência desperta. Usa um
cavalo (o cavalo na linguagem mitológica sempre representa o poder do
pensamento humano) para a batalha. A lança faz um buraco na parte obscura do
dragão e deixa entrar a luz, a luz do dia da consciência. Assim ele supera o
dragão do medo. O mar (água) é uma imagem do etérico, isto é, das forças
vitais; a respiração flamejante do dragão que queima e destrói, é uma
imagem das paixões descontroladas, quer dizer, as forças astrais selvagens e
por conseguinte, destrutivas. O dragão deslizando na água, é uma combinação
profana das forças astrais e etéricas em forma das cobiças, que devastaram o
continente da velha Atlântida. É então representativa dos conflitos não
resolvidos da Atlântida, do carma da Atlântida superado por um homem (São
Jorge) colocando a consciência michaélica dentro do dragão. A princesa sempre
representa o mais elevado no homem, o seu futuro Eu. Agora São Jorge pode
amarrar a astralidade virginal impoluta, (a cintura da princesa) ao dragão e
deste modo, amansá-lo. A garganta do dragão, fulminando a sua natureza
instintiva e escura é perfurada pela luz de Michael e domesticada, podendo
agora servir ao ser superior do
homem, isto é, seguir a princesa
como um cãozinho obediente: agora ele serve a vontade do homem. "Acima da
montanha" significa: o homem retorna para o pai, para a sua morada
espiritual. É a verdadeira imagem da redenção do homem. São Jorge, o herói
michaélico, não precisa de um prêmio. A redenção do ser mais elevado do
homem, é o prêmio; ele não precisa de outro. O dragão também sofreu. A lança
de São Jorge traz-lhe consciência e ele pode novamente servir ao
desenvolvimento humano, servir as forças
de alma mais puras do homem, com nova consciência.
O
sofrimento do coração da África, que durou épocas, deve ser cuidado com o
poder de sacrifício do coração e iluminado pela lança de Michael da
sabedoria esotérica de Cristo. Com isto, o futuro nascerá.
Nota
de Tradução:
(*)
Perigoso penhasco ao sul
da Itália, ligado a ponta oposta por um estreito, onde no mitológico A
Odisséia, seis homens se perderam.